Por José de Alencar (1875)
— Vou pedir a meu pai.
— Não tenha êste trabalho.
De um salto Arnaldo ganhou o tabocal e voltou com o ninho cheio de ovos, pois os anuns andam em bandos, em tal regime comunista, que até os filhos são promíscuos.
— Está vendo? disse Arnaldo mostrando o ninho.
Foi tão forte a tentação de Flor à vista dos lindos ovos, azues como turquesas, que a menina esteve por pouco a ceder de sua tenção; mas venceu o capricho. Ela voltou desdenhosamente as costas.
Arnaldo atirou o ninho ao chão e esmagou os ovos com o pé. Alina soltou um gritozinho de dôr, lembrando-se dos passarinhos que alí se estavam gerando e das mãezinhas deles. Flor levantou os ombros com desprêzo.
— Há muitos ninhos de anuns, disse ela.
— Eu vou tirá-los todos, e quebrar os ovos, como fiz com êste. Juro que você não há de ter nenhum.
Com êste pensamento desapareceu.
Quando o rancho dos meninos chegava à casa, apareceu-lhe Arnaldo, com uma coleção de ninhos de anuns.
— Está vendo? disse a Flor, fazendo menção de arrojar os ocos ao chão.
A menina não resistiu mais; a contrariedade de seu desejo, ela a dominaria; mas foi vencida pela pena que lhe inspiravam as vítimas inocentes de seu capricho e da impiedade de Arnaldo.
— Dê-me, Arnaldo! disse estendendo a mão.
O rapaz entregou-lhos todos, esquecido já da pirraça da menina.
Flor, porém, não lhe perdoou facilmente êsse triunfo. Se desde aí não pediu mais a Jaime coisa alguma, também por muito tempo evitou de manifestar o menor dos seus desejos a Arnaldo.
XII – Anhamum
Ao tempo destas cenas de infância, que reviviam agora na memória de D. Flor, o sertão de Quixeramobim era infestado pelas correrias de uma valente nação indígena, que se fizera temida desde os Cratiús até o Jaguaribe.
Era a nação Jucá. Seu nome, que em tupí significa matar, indicava a sanha com que exterminava os inimigos. Os primeiros povoadores a tinham expelido do Inhamuns, onde vivia à margem do rio que ainda conserva seu nome.
Depois de renhidos combates, os Jucás refugiaram-se nos Cratiús, de onde refazendo as perdas sofridas e aproveitando a experiência anterior, se lançaram de novo na ribeira do Jaguaribe, assolando as fazendas e povoados.
Não se tinham animado ainda a assaltar a Oiticica, onde o capitão-mór estus insultos eram constantes. Não se passava semana em que não matassem algum agregado da fazenda, ou não queimassem plantações.
Resolveu o capitão-mór Campelo castigar êsse gentio feroz; e saíu a manteá-lo com uma numerosa bandeira, em que lhe servia de ajudante o Louredo, pai de Arnaldo, que era vaqueano de todo aquele sertão.
Com tal astúcia manobrou o vaqueiro, que os Jucás apanhados de surpresa foram completamente destroçados, ficando prisioneiro seu chefe, o terrível Anahmum, nome que na língua indígena significa irmão do diabo.
Desamparado pelos seus, o formidável guerreiro defendeu-se como um tigre, e só rendeuse quando o número dos inimigos cresceu a ponto de submergí-lo. Então mandou o capitão-mór amarrá-lo de pés e mãos e conduzí-lo à Oiticica, onde foi metido no calabouço.
Arnaldo não fez parte da bandeira; o Louredo não o quis levar consigo, e êle submeteu-se à vontade paterna. Assistira, porém, a todo o combate como simples curioso; e viu o denôdo do valente Anhamum, que lhe ganhou a admiração e a simpatia.
O rapaz tinha lá para si que os índios não faziam senão defender a sua independência e a posse das terras que lhes pertencia por herança, e de que os forasteiros os iam expulsando. Fôra esta a razão por que não se empenhara em combatê-los.
Quando ao voltar à Oiticica ou viu dizer aos bandeiristas que o chefe dos Jucás estava no calabouço e ia ser supliciado no dia seguinte com estrépito, para exemplo e escarmento do gentio, Arnaldo revoltou-se e protestou a si mesmo salvar Anhamum.
A intenção do capitão-mór fôra efetivamente em princípio fazer do suplício do selvagem um espetáculo de incutir o terror, convocando para assistir a êle todos os moradores conjuntamente com dois outros índios prisioneiros, que levariam aos seus a notícia das torturas infligidas ao chefe.
Mudou, porém, de idéia o Campelo, e resolveu meter Anhamum em uma gaiola de ferro, como se faz com os tigres, e enviá-lo a Lisboa com um procurador, que de sua parte oferecesse a Elrei essa preciosa curiosidade do sertão, ornado de todos os seus petrechos bélicos e insígnias de chefe.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.