Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Ai de mim! nem tenho quem me console. A ninguém ouso dizer por que choro; ninguém saberá a causa de meus tormentos; zombariam de minhas lágrimas.

Oh! é bem triste. Todos devem ter padecido o que eu padeço. Todos têm coração. Todos devem ter amado. Como é pois que se ousa ridicularizar as penas de amor?... não zombam de si mesmo aqueles que zombam delas?

E contudo eles se riem sempre!...

Paciência; sofrerei tudo em silêncio. E se isto não é um tormento passageiro; se o meu amor tão novo, tão puro, tão extremoso foi morto por um ingrato, guardarei os restos dele no coração, chorarei com a minha alma de joelhos ao pé desse coração, que foi a um tempo o berço e a sepultura desse amor, como uma mãe extremosa chora abraçada com a urna onde guarda os ossinhos de seu primeiro filho.

Tenho a cabeça perdida... falta-me às vezes o ar... às vezes os cabelos me pesam...

A sociedade me aborrece... que tenho eu com os prazeres de toda essa gente!... ninguém me compreende lá. Desejo estar só... muito só, conversando com as minhas saudades.

Agora a minha amiga é a noite; quando a lua é cheia e o tempo está sereno, eu passo horas inteiras refletindo à janela de meu quarto.

Nunca me acho só nessas horas; embaixo, no jardim, os favônios conversam com as flores ao mesmo tempo que eu falo com o meu coração.

As flores respondem aos favônios com a exalação de seus perfumes, como o coração me responde com as suas saudades.

É assim que passo as noites; os dias são muito tristes, porque já perdi meus antigos prazeres.

Nem mesmo a música me agrada... se vou tocar, paro no meio de uma harmonia para embeber-me toda em um pensamento, que ela desafia.

Não posso cantar... quase sempre choro. Agora, por exemplo, seria ocasião de ir ouvir o velho Rodrigues cantar suas velhas baladas; era a hora da sesta. Não irei.

Mas... lá soa a sua voz; ele canta...

É o romance do botão de rosa...

Eu vou...

XII

Já compreendi tudo.

A intriga me separa do homem que amo; a calúnia me nodoa... tudo está revelado.

Minha tia fez crer ao modesto mancebo que o seu amor me afligia; que eu supunha a minha reputação em perigo; que ele era pobre e por isso indigno de mim.

Fecharam em meu nome as portas do “Céu cor-de-rosa” no rosto do nobre mancebo. Oh! como não terá ele amaldiçoado a primeira hora em que me viu!

Todavia... antes assim...

Não sei quais sejam os desígnios de minha tia; agora, porém, sinto-me com forças de assoberbar a tempestade. Sequem as minhas lágrimas.

Caluniam-me?... querem separar-me dele por meio da intriga?... pois bem; direi bem alto que o amo, quero que todos ouçam – eu o amo!

Amo-o tanto como amei já as meiguices de minha mãe, e a bênção de meu pai, e como amo ainda agora a memória de ambos.

É um amor puro e santo, que sai do âmago do coração, como um pensamento sai do seio da alma.

É um amor puro e santo que embeleza a minha vida, como a aurora que se vai sorrindo no céu, como um sorriso que se vai abrindo nos lábios!...

Oh! volta, meu amado, volta!

Volta, para que eu seja outra vez como uma flor que se desabotoa...

Volta, para que eu não seja por mais tempo como a pomba que geme solitária. Volta!... eu te amo.

***

Quando o mancebo terminou a leitura da história do amor da “Bela Órfã”, sentiu que uma revolução profunda e completa se havia operado em todos os seus sentimentos.

A paixão prorrompia de novo, o fogo mal amortecido pela intriga flamejava com dobrado ímpeto.

Os olhos de Cândido brilhavam, suas faces pálidas estavam enrubescidas, e seus lábios se dilatavam e sorriam ante o aspecto da felicidade.

Beijou mil vezes aquelas páginas, que guardavam os pensamentos, e por onde haviam deslizado os delicados dedos da “Bela Órfã”; apertou-as contra o coração exclamando:

– Eu sou feliz!... eu venço o meu destino!...

Lançou mão da pena e começou a escrever com o ardor e o interesse de um poeta apaixonado.

O que escrevia ele?

Ao romper do dia Cândido achava-se adormecido junto da mesa onde escrevera.

Despertou de repente ao zunido do vento.

Começava a bramir uma tempestade... o céu estava escuro; a chuva prestes a cair.

Cândido viu então os seus papéis desordenadamente espalhados pelo chão; alguns rolavam já pela escadinha do velho sótão; correu a apanhá-los e a pô-los em ordem.

Achou todos, achou mesmo toda completa a história do amor da “Bela Órfã”. Mas não achou o que ele havia escrito na noite que acabava de terminar.

CAPÍTULO XXXI

EU O EXIJO! – SENÃO...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...8889909192...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →