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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Hum.

— Oh, narigudo de uma figa!...

Tomásia furiosa com o propósito em que estava Venâncio de não dizer palavra, triunfou inesperadamente: o pobre velho não pôde ouvir em silêncio um insulto dirigido ao seu nariz. — Oh, Sr.ª Tomásia, por quem é, não me deite a perder!... diga tudo quanto quiser; mas não toque no meu nariz!...

— Narigudo!... narigudo!...

— A senhora devia ser casada com um homem sem nariz!

— Narigudo!... narigudo!...

— E a senhora!... é uma mulher que se diz com vinte e nove anos, sendo capaz de ser minha mãe!...

— O que é que diz?... gritou Tomásia avançando.

— Pois se não quer ver-me perder o meu sangue-frio, não fale do meu nariz!... disse Venâncio afastando-se temeroso.

— Narigudo! bradou Tomásia.

— E a senhora é um... estu... víbo... dia... dragão!...

— Espera, que eu te ensino, narigudo duma figa!

Tomásia lançou mão de uma cadeira e atirou-se contra Venâncio, que deitou a correr em roda da sala, tomando outra cadeira para defender-se; ao passar junto da porta do gabinete, viu que Manduca aparecia e exclamou:

— Manduca! salva teu pai das garras daquela mulher!

E, como para isto dizer fizesse uma pequena parada, Tomásia atirou-lhe com a cadeira; mas já então Manduca se havia posto entre ambos, e foi ele quem recebeu nas costas tão grande pancada, que caiu derreado.

— Manduca!... exclamaram os dois velhos, esquecendo-se por um momento de seus furores, e correndo a acudir o filho.

— Manduca!... assobiou Rosa com voz de falsete.

No entanto, Manduca fazia no rosto contrações horríveis, e, por duas ou três vezes que tentou levantar-se, caiu de novo.

Os dois irmãos ocupados em sua disputa fraternal, não haviam dado atenção aos gritos que seus pais soltavam na sala, aos quais, aliás, por muito afeitos, já ouviam sem grande cuidado; enfim, no momento de entrar na sala, o filho apanhou em lugar de seu pai o golpe de que acabamos de falar.

— Quem tem culpa és tu, velho narigudo! disse Tomásia.

— Quem tem culpa é a senhora, mulher despropositada! disse Venâncio.

— Quem tem culpa, minha mãe, é a amarela da moda, acudiu Rosa.

— Quem tem culpa é o Sr. Brás-mimoso, balbuciou Manduca falando como a espremerse.

— Meu filho, tornou Tomásia; eu te vingarei no nariz de teu pai.

— Meu filho, acudiu Venâncio, eu te vingarei não dando mais resposta a tua mãe.

— Meu irmão, bradou Rosa; eu te vingarei, pondo a boca no mundo contra aquela bruxinha desenxabida!

— Obrigado! disse Manduca; mas a vingança quero eu tirá-la das orelhas do Sr. Brásmimoso.

— Minha mãe, exclamou Rosa, Manduca quer cortar as orelhas do Sr. Brás!...

— Manduca! eu te defendo, sob pena de minha maldição, de tocares em um só cabelo do

Sr. Brás!...

— Está bem, minha mãe, disse Manduca; eu lhe juro que não tocarei em um só cabelo do Sr. Brás-mimoso.

E depois continuou, dizendo consigo mesmo:

— Ainda bem que o tal bichinho é careca.

XXVII

Otávio

Pouco mais ou menos pelo mesmo tempo em que tiveram lugar as cenas desagradáveis que no anterior capítulo descrevemos, uma outra mais grave e muito mais terrível ocorreu na câmara do guarda-livros de Hugo de Mendonça.

Félix alojava-se em um simples e modesto gabinete do sobrado da casa comercial de seu amo.

Eram nove horas da noite.

O guarda-livros entrou vivamente agitado para seu quarto; e, fechando-se por dentro, atirou-se sobre uma cadeira de braços, e ficou quase uma hora imóvel e abatido, mergulhado em amargas reflexões.

Um candeeiro de bronze estava aceso defronte dele, e refletia sobre o pálido semblante do mancebo os raios de uma luz débil e enfraquecida...

Em todo esse tempo apenas se ouviam profundos suspiros soltados por Félix, e o monótono tique-taque da pêndula de um relógio, que sobre um próximo aparador existia.

Finalmente, os olhos do guarda-livros ergueram-se e fitaram-se no relógio.

Faltavam cinco minutos para dez horas.

O guarda-livros estremeceu todo e, arrancando convulsamente uma carta do bolso de sua sobrecasaca, leu para si, sorrindo-se com desesperada ironia, as seguintes breves linhas: “Félix. Tentei todos os meios... esgotei-os todos, e tudo foi baldado; o derradeiro recurso que me resta é esse... um crime!!... embora... nós o lavaremos. Reduzido a dar um passo desesperado, eu abuso da minha posição; eu sei que abuso, Félix! porém, não posso voltar atrás; e, portanto, eu insisto... eu imponho!... às dez horas da noite entregar-te-ei a caixinha de veludo preto; e tu me darás as letras. Otávio.”

Acabando de ler, Félix foi guardar a carta em uma das gavetas de sua secretária e, voltando de novo a seu primeiro posto, murmurou com voz abafada:

(continua...)

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