Por Aluísio Azevedo (1891)
A sua dor era sincera, e por isso se apoderava do coração de todos que o escutavam; tanto que Ângelo, ao terminar a prédica, lançando o derradeiro lamento de desespero pela morte do Redentor, e pedindo a Deus que o fulminasse também naquele mesmo instante, para nunca mais ter olhos, nem boca, nem ouvidos para este mundo de maldades, viu erguerem-se todos em volta dele e um grito de entusiasmo acompanhar as suas últimas palavras, como se de repente acordassem em sobressaltos, depois da embriaguez em que os lançara aquela estranha e capitosa eloqüência.
Mas, antes que tivessem tempo de apoderar-se dele, e antes que as damas descessem das tribunas para felicitá-lo, já frei Ozéas, cioso do seu tesouro, arrastava-o pelos corredores da sacristia e metia-se com ele no carro, mandando tocar a toda pressa para o convento.
Quando o rei lhe mandou dizer pelo seu primeiro criado particular, o Sr. de Laborde, que viesse à sua presença para falar-lhe, já a sege de praça em que ele ia com o frade, havia desaparecido muito tempo antes.
CAPÍTULO VI
Um homem paro discutido por mulheres
O sermão de Ângelo foi um verdadeiro acontecimento, que logo se apoderou da curiosidade de Paris inteiro.
Por toda a parte se falava em tal, e se comentava aquele pálido e meigo seminarista, que vinha, da sombra silenciosa de um pobre mosteiro, abalar o coração de toda a corte de Luís XV.
Discutiam-lhe os olhos, a boca, os cabelos. Falava-se do seu ar angélico, da sua encantadora expressão de santo inspirado, e da maravilhosa doçura da sua voz.
Formaram-se logo mil lendas a respeito dele, e sabia-se que o rei, depois de lhe oferecer um lagar na capela real, o que foi imediatamente recusado pelo velho Ozéas, propôs-se a assistir à sua missa nova, graça que não tinha até aí concedido a nenhum outro iniciado, e prometeu também presenteá-lo com as vestes e paramentos que o seminarista tinha de pôr nesse dia, o que equivalia a dizer que Ângelo iria ordenar-se cercado de todos os esplendores.
E começaram, tanto os que presenciaram o famoso sermão de quinta-feira santa, como os que apenas ouviram falar dele com insistência, a esperar o dia da iniciação de Ângelo, para ter, ao menos, o prazer de ver esse imberbe e afortunado pregador, que assim abalava escandalosamente o alto e baixo público de Paris.
Ângelo era o assunto de todas as palestras da rua e das salas. No teatrinho que o duque de Orléans tinha no seu palácio de Bagnolet, célebre pelas cenas licenciosas que aí se representavam, tratava-se já de fazer subir à ribalta uma peça com o nome dele, na qual o duque desempenharia um dos principais papéis.
No salão teatral da duquesa de Villeroi, onde o rei da Dinamarca viera uma vez para ouvir declamar o popularíssimo Le Kain e MºClairon, pensava-se também em montar uma comédia de assunto sacro, cuja ação se passava na capela real, e cujo protagonista era um pregador de vinte anos.
E, assim, no teatro do barão de Esclapon, no da duquesa de Mazarin, no do
Sr. de Magnaville, no do príncipe de Condé, no da Guimard, e nas salas alegres de Sofia Arnoud, pontos esses de reunião em que melhor se fazia espírito e, com mais graça e mais picante maldade, se discutiam as novidades e os escândalos do dia, era ainda Ângelo o assunto da palestra e o objeto de mil epigramas, sátiras e trocadilhos.
Mas onde incontestavelmente o assunto despertou maior escândalo, foi no salão da condessa Alzira, bela, cínica e espirituosa cortesã, célebre por ser nessa época a mulher mais insensível e mais fria de Paris. Juravam todos que a formosa condessa jamais sentira por ninguém a menor partícula de amor, e que o seu melhor momento de alegria era quando, por causa dela, algum dos seus inúmeros apaixonados caía morto em duelo ou metia uma bala nos miolos.
Começando pelo rei, que fora o seu primeiro amante, pertencera ela depois simultaneamente, ora mais ora menos tempo, a toda a gente da corte capaz de manter mulheres caras.
Tinha uma virtude: a ninguém enganava, porque, não só confessava francamente ao seu dono da ocasião toda a sua insensibilidade, fosse lá por quem fosse, como não repartia com um segundo aquilo que um primeiro houvesse arrematado já e pago à vista.
Esta sinceridade original em uma pessoa das suas condições, valeu-lhe a estima de alguns homens de espírito. De sorte que as quintas-feiras de Alzira eram freqüentadas por boa roda de rapazes, e a gente se não aborrecia entre as quatro paredes das suas riquíssimas salas.
Como fiéis, reuniam-se lá todas as semanas suas amigas, a cantora Sofia Verriére, Gabriela Vanguyon, Margarida Duclos, o conde de Saint-Malô, Artur Bouvier, e, principal e invariavelmente, o seu velho amigo, o único homem para quem Alzira tinha às vezes um sorriso de amizade, o Dr. Cobalt, médico de nomeada, que fazia algum ruído em volta do próprio nome com os seus estudos sobre o materialismo, então apenas nascente em França.
E as reuniões eram boas quase sempre. Na imediata ao sermão de quinta-feira santa, era Ângelo o assunto forçado em todos os grupos.
— Um triunfo! exclamava Sofia; um verdadeiro triunfo! Em alguns dias o tal discípulo do velho Ozéas tornou-se quase tão popular como a Pompadour!
— É exato! confirmou o conde de Saint-Malô; depois de Bossuet, não se ouviu em Paris uma prédica tão notável. Nem as melhores de La Rose!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.