Por Aluísio Azevedo (1897)
Moscoso começava a presenciar a realização dos seus dourados sonhos de vingança, já era rico, respeitado, estava em vésperas de ser comendador e em breve seria milionário; ao passo que o marido da outra — o pobre empregado público, não passava ainda de miserável chefe de secção, e continuava a medir o seu ordenado pelas despesas indispensáveis da casa.
Ah! que bastantes vezes teriam ocasião de comparar os dois destinos, pensava aquele. De um lado o magro funcionário público, seco, modestamente vestido, curvado pelo serviço, com o espírito consumido pelo trabalho oficial, pela papelada da secretaria, e traduzindo na cara o nenhum caso que lhe votava a sociedade; em quanto do outro lado, resplandecia o belo comendador, o futuro barão, o homem das altas transações, a alma de mil negócios, o nédio ricaço que brincava com muitos contos de réis, gozando a boa carruagem, fumando o seu bom charuto, rindo na praça, dizendo pilhérias aos colegas tão ricos como ele.
E Moscoso reviase na própria prosperidade, imponente na sua barriga esticada e egoísta, a destilar todo ele um ar petulante da fartura e proteção, a esconder enfim com uma simples aba da sua larga sobrecasaca o vulto franzino do miserável empregado público.
— Esfregueios! exclamou o marido de Genoveva em um assomo de contentamento. — Esfregueios em regra!
Entretanto, a vida do coronel ia muito pior do que podia imaginar o comendador Moscoso. O bom veterano, percebendo que os seus bens de fortuna tendiam a enfraquecer consideravelmente, teve um palpite de ambição e meteuse a especular com eles. Foi um desastre que deixou o pobre homem quase reduzido ao soldo militar.
Por essa época, o filho habitava em S. Francisco da Califórnia depois de ter estado na Europa a aperfeiçoarse em medicina. O velho participoulhe o estado em que se achava, e pediulhe que voltasse quanto antes. Gaspar, que até aí gozara ordem franca, não acreditou em semelhante notícia, calculou que o pai desejava vêlo e tratou de partir sem pressa.
Tinha ele então vinte e quatro anos e era um belo moço. Tomou uma passagem no "Pacific Star", disposto a voltar definitivamente para a companhia do pai.
Mas, enquanto o navio ancorava em Montevidéu para refrescar, Gaspar resolveu aproveitar o dia, visitando a cidade com outros rapazes companheiros de bordo.
Só quem não viajou deixará de compreender o que é passar vinte e quatro horas numa cidade estranha, quando se tem outros tantos anos de idade e dinheiro nas algibeiras. Jantaram em casa de uma rapariga; o vinho era excelente e a tarde encantadora. As horas voaram no turbilhão do prazer e da desordem; ferveu o champanha, as canções rebentaram estrepitosamente entre gargalhadas.
O navio largava no dia seguinte às onze horas.
À meianoite os rapazes levantaramse da mesa, mas a rapariga passou os braços no pescoço de Gaspar e pediulhe que ficasse. Ele cedeu, tinha a cabeça pesada e o corpo lhe exigia repouso. Não foi sem prazer que viu a vasta cama e o confortável aposento, que lhe franqueou a dona da casa.
Deitouse e pediu que lhe servissem chá antes de dormir. Foi ela própria levarlhe ao leito uma chávena, em que tinha lançado duas gotas de ópio.
Gaspar, depois de beber, sentiu um grande entorpecimento e adormeceu profundamente.
Então, a um sinal da rapariga, acudiu da alcova imediata um homem musculoso, que se apoderou dele e o levou consigo.
Gaspar foi carregado em trajes menores; todos os seus objetos de valor, o seu dinheiro e a sua roupa externa ficaram no quarto da ratoneira.
O homem que o colheu atirouo dentro de uma carruagem à porta da casa, e trepou para a boléia.
O carro percorreu várias ruas, e afinal parou em uma das mais sombrias e desertas.
O ladrão desceu então da boléia, sacou Gaspar da sege, deitouse ao comprido do macadame, galgou de novo o seu posto e afastouse fustigando os cavalos.
A noite fizerase escura e um vento frio ameaçava chuva. Gaspar continuava a dormir, estendido no chão.
Só voltou a si às três horas da tarde. Ao abrir os olhos, reparou que estava deitado em um rico aposento, e que o tinham envolvido em magníficas casimiras e agasalhado os pés em edredão legítimo. Ao lado da cama, de pé, olhando para ele, havia uma mulher, que resplandecia em toda a exuberância de mocidade e beleza
Gaspar supôsse num sonho; esfregou os olhos, estendeu a cabeça. E a linda visão, com o mais amável dos sorrisos, passoulhe uma das mãos no ombro e com a outra lhe fez sinal de silêncio.
Ele tomou aquela mãozinha branca e nervosa e ficou a fitála por longo tempo. Depois traçou um circo com o olhar e perguntou verdadeiramente surpreendido de tudo que via em torno de si:
— O que quer isto dizer? Onde me acho eu?!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.