Por Machado de Assis (1886)
Os juízos do mundo são singulares e contraditórios. Quando uma pobre rapariga cai num erro, como Emília, o mundo fecha-lhe as portas e lavra mandamento de interdição. É justo. Mas o que não é justo, o que é infame, o que clama justiça, é que essas mesmas portas se abram ao autor do crime, e que este, depois de sofrer uns simples murmúrios de desaprovação, seja festejado, acatado, considerado.
Ora, a situação de Emília diante do mundo apresentou-se logo no espírito de Vicente em todo o seu horror.
Vicente, voltando do abalo que sofrera, procurou reunir as idéias e os fatos e meditou sobre eles.
O que havia de positivo era:
Uma menina enganada e perdida.
Um depravado alegre e feliz com o bom êxito da empresa, rindo-se de longe da credulidade e do infortúnio de uma família honrada.
A par da velhice desfeita, a felicidade dos seus últimos dias anulada. Que fazer diante disto?
Vicente formou e desfez mil projetos, sem acertar com um que pudesse resolver todas as dúvidas e preparar todas as conseqüências.
Estava velho. Podia morrer de uma hora para outra. Emília ficava desamparada. Podia perder-se, senão por tendência própria, ao menos por urgência das necessidades. Ele sabia que a rapariga nas circunstâncias de Emília apresentava este dilema: ou a morte ou a vergonha, pontos horríveis, aos quais não é possível chegar sem ferir os preceitos divinos e humanos.
Há uma terceira solução que faz sair da morte e da vergonha; mas essa terceira seria escolhida por Emília? Apesar das lições paternas, do exemplo, da índole, dos sentimentos que nutria, ficaria ela a salvo das futuras seduções que, de envolta com a necessidade, fossem debruçar-se à noite no leito de sua miséria?
Vicente sentia, via, adivinhava toda esta situação, mas desesperava por não poder achar um só meio de preveni-la, e dissipar as suas tristes apreensões.
Entretanto o mais fúnebre silêncio sucedeu em casa às explosões de dor e de indignação do pai e da filha.
Esta vivia quase sempre no quarto, evitando o mais que pudesse a vista do pai, que era para ela a imagem da consciência viva.
Vicente do mesmo modo recolhia-se ao seu quarto, e ali passava horas e horas, só com a sua dor e com as suas considerações do futuro.
Um dia Vicente entrou no quarto de Emília e foi sentar-se ao pé dela.
— Emília...
— Meu pai.
— Já te perdoei, como sabes, o erro em que caíste; reconheci, minha filha, que a boa fé do teu coração foi iludida. Tudo isto pertence ao passado. Mas pensaste no futuro?
— No futuro?
— Sim, pensaste na tua posição de ora avante, nas circunstâncias penosas em que te achas, mas ainda mui penosas com que hás de achar-te quando eu morrer?
— Oh! meu pai, eu também morrerei...
— Ouve. Não digas isso. Não sabes se poderás ou não resistir à minha morte, e no caso afirmativo, que é o que se há de dar, porque é o que se dá sempre, só recorrendo ao crime terás a morte, e então...
— Meu pai!
— E então terás aumentado as torturas eternas do meu espírito... Ah! é preciso que te não esqueças de que há um Deus que nos olha e nos julga. Para esse, apelo eu, apelarás tu, no que diz respeito ao infame. Mas enquanto esse Deus não te chamar a si, tu não tens, nem eu tenho, o direito de atirar à margem o fardo da vida. Bem sei, meu pai...
— Ora, pois. Morto eu, qual é a tua posição? Ficas desamparada à beira de um abismo. É preciso que conjures esse perigo, e eis o meio: mudar-nos-emos daqui. A casa a que eu for morar terá capacidade para que possamos eu e tu trabalhar em uma só coisa: fazer um pecúlio para ti. Serei hortelão; serás costureira. O que nos render nessas duas ocupações, junto com o que o Estado me dá, servirá para sustentar a casa e economizar de modo que, no fim de alguns anos, quando a morte me chamar, tu fiques desassombrada, ao abrigo das necessidades e das tentações.
— Oh! meu pai! exclamou Emília deitando-se aos braços de Vicente.
— Queres?
— De todo o coração, meu pai.
Desde este dia foi assentado que ambos se ocupariam na reparação do passado por meio da esperança do futuro.
Mudaram-se para a casinha em que os encontramos, leitor, no começo desta narrativa. Aí viveram, longe do mundo, entregues só ao cumprimento da palavra jurada e no desempenho dos encargos que o funesto amor de Valentim trouxera àquela infeliz família. Quanto ao rapaz, Vicente entendeu que não devia por modo algum procurar vingar-se. Qual seria a vingança? Vicente, profundamente religioso, julgou entre si que a justiça de Deus bastava para reparar os casos onde fosse impotente a justiça dos homens. Votando-se a uma vida de trabalho e de obscuridade, o pai e a filha buscaram reparar os erros do passado, amando-se mais e fazendo convergir os seus esforços, para a compra da tranqüilidade futura.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O pai. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.