Por Martins Pena (1846)
[PAULINO] – Creio que fecha a porta... Mau! E deixou-me no escuro. (Encaminha-se para a porta e conhece que está fechada.) Está fechada! Fechada! Oh, com mil diabos, estou ainda preso e em seu poder! Meu Deus, quando sairei eu desta maldita casa? Só, no escuro e com uma defunta... Ela está lá dentro morta e fui eu a causa da sua morte! Não tarda muito que venha sua alma por aí a pedir-me contas... Já tenho os cabelos todos arrepiados. Escapei de morrer apunhalado, afogado, mas de certo morrerei assombrado. Que noite, que noite! (Dá dentro uma hora, ao longe.) Uma hora! É a hora das almas do outro mundo... E eu fechado sozinho com uma defunta! (Do buraco da primeira porta à esquerda salta em cena um gato; ao ruído que este faz, saltando, Paulino se assusta e cai de joelhos) Ai, misericórdia, misericórdia! Padre nosso, que estás no céu, santificado seja vosso nome... santificado... venha a nós... que estás no céu... vosso nome... santificado... o pão nosso... santificado... que estás no céu... seja o vosso nome... as vossas dívidas... Creio que se foi embora... Nada ouço. (Levantase.) É a alma da desgraçada, que anda penando... Infeliz, Deus se compadeça de ti e por lá te tenha muito tempo sem mim... Ora, é célebre! Como eu perdi o amor a esta mulher, depois que ela morreu... Está-me parecendo que o medo que tenho rapado esta noite é que essa mudança. Ai, ai, eu daria o amor de todas as mulheres solteiras, casadas, viúvas e etc., só para me ver fora daqui e... (Aqui abrem a porta da direita.) Aí vem ela! É uma sombra branca... que vai até o teto... Ai, ai! (Cai de joelhos.)
CENA XVI
ANACLETA entra pela direita.
ANACLETA, entrando – Deixaram-me só... fugiram todos... Que homem bárbaro! Como está escuro! Estou só, só e abandonada. Como tenho a cabeça abalada da horrível queda que dei... Talvez Balbina esteja no seu quarto; vejamos. Ela não teria coração de desemparar-me, fraca como estou.
PAULINO, enquanto Anacleta tem este pequeno monólogo, reza em voz baixa – Salve Rainha, que estás no céu... neste vale de lágrimas... perdoai o pão nosso... assim como nós na vida eterna... amém Jesus... (Etc. Anacleta, dirigindo-se para a esquerda, a fim de entrar no quarto de Balbina, esbarra-se em Paulino, que está de joelhos, e ambos se assustam.)
ANACLETA, assustando-se e recuando – Ai!
PAULINO, caindo de bruços – Misericórdia, misericórdia!
ANACLETA, à parte – Quem será?
PAULINO, de bruços – Senhora Alma do outro mundo, tenha compaixão de mim! Quem a matou foi seu marido... Agarre-se com ele e leve-o para o inferno... Mas eu, senhora?
ANACLETA – Ai, que é o vizinho que ainda está por cá e julga-me morta.
(Dirigindo-se para Paulino:) Senhor...
PAULINO, à parte – Senhor! Esta alma é muito bem criada...
ANACLETA – Sou eu, não se assuste, não tenha medo...
PAULINO, à parte – Parece-me boa pessoa, coitadinha!
ANACLETA – Como se acha ainda aqui? Responda!
PAULINO – Assim era eu tolo!
ANACLETA – Meu marido que me julga morta...
PAULINO, levantando-se pouco a pouco – Que a julga morta?
ANACLETA – Só porque, fugindo eu do seu furor, rolei pelas escadas e caí sem sentido.
PAULINO, sentado – Pois a senhora não está morta? Pois eu não estou falando com a sua alma?
ANACLETA – Eu morta! Talvez assim me julgassem, por isso me abandonaram. Mas graças a Deus ainda estou viva.
PAULINO, levantando-se – Ainda está viva! Eu também estou vivo... Também já estive morto. Ambos estamos vivos e fechados nesta casa... E foi ele quem nos fechou... Ele mesmo, o marido... Oh, que pedestre estúpido!
ANACLETA – Senhor!
PAULINO – Não se assuste... Há uma hora que eu teria dado quanto possuo para estar como estou, só convosco. Mas as coisas mudaram; esta única hora tem-me envelhecido mais de cinqüenta anos. Saltei pela minha janela, trepei no vosso telhado, escorreguei três vezes, desci pela vossa escada, quebrei-a, presenciei os furores de vosso marido, chorei a vossa morte, fui assassinado, metido em um saco, meu Deus! e tudo isto em uma hora! Não seria melhor que eu estivesse deitado em minha cama, roncando debaixo dos lençóis?
ANACLETA – O senhor foi de tudo isso culpado e causa do que eu tenho sofrido.
PAULINO – Serei eu o culpado de tudo, carregarei com mais essa – hoje estou pronto para tudo. Mas sempre vos direi que, se me tivésseis dado com as janelas na cara quando eu lá da minha vos namorava, não teria acontecido tudo isto...
ANACLETA – Nunca lhe dei esperanças; conhecia os meus deveres. Se às vezes lhe dava atenção, era para distrair-me da insip[id]ez em que vivia.
PAULINO, furioso – Para distrair, para distrair-se! E a tanto me arrisquei! Oh, grandissíssimo pateta, pedaço de asno! Camelo, camelórío, que tanto te arriscaste por uma mulher que se divertia contigo! Arrebento!
ANACLETA – Não grite tanto, que ele pode vir...
PAULINO – Ele! Oh, agora é que minha morte é certa... E que morte? E por quem? Arreda, mulher, arreda! Eu agora preferia estar com tua alma... Sim, com tua alma, porque ainda não vi nenhum marido ter ciúmes da alma de sua mulher...
ANACLETA – Senhor!
PAUL1NO – Oh, estou capaz de te matar para ficar só com tua alma!
ANACLETA – Meu Deus!
PAULINO – Tudo está acabado, tudo! Amanhã estarei morto! Ó Sol que me alumiais, amanhã verás o meu enterro subindo pela Ladeira de Santo Antônio... Não escapo, não posso escapar... Aqui encontrado, só com ela, morrerei às suas mãos. Oh!
ANACLETA – Fujamos, fujamos!
PAULINO – Fugir contigo! Oh, de ti fugiria eu, se a porta estivesse aberta. Fugir com uma mulher! Oh, leve o diabo todas as mulheres e quem acredita nelas e...
ANACLETA, muito assustada – Ele aí vem! (Dirige-se para a direita e sai.)
(continua...)
PENA, Martins. Os ciúmes de um pedestre ou o terrível capitão do mato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2155 . Acesso em: 29 jan. 2026.