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#Comédias#Literatura Brasileira

Lição de Botânica

Por Machado de Assis (1906)

— Parece que estás disposta a estudar botânica.  


D. HELENA 

— Estou.  


D. CECÍLIA, sorrindo 

— Com o barão?  


D. HELENA 

— Com o barão.  


D. LEONOR 

— Sem o meu consentimento?  


D. HELENA 

— Com o seu consentimento.  


D. LEONOR 

— Mas de que te serve saber botânica?  


D. HELENA 

— Serve para conhecer as flores dos meus bouquets, para não  confundir jasmíneas com rubiáceas, nem bromélias com umbelíferas.  D. LEONOR — Com quê?  


D. HELENA 

— Umbelíferas.  


D. LEONOR 

— Umbe...  


D. HELENA 

— ... líferas. Umbelíferas.  


D. LEONOR 

— Virgem Santa! E que ganhas tu com estes nomes bárbaros?  


D. HELENA 

— Muita coisa.  


D. CECÍLIA à parte 

— Boa Helena! Compreendo tudo.  


D. HELENA 

— O perianto, a senhora talvez ignore a questão do perianto... a  questão das gramíneas...  


D. LEONOR

— E dou graças a Deus!  


D. CECÍLIA , animada

— Oh! deve ser uma questão importantíssima!  


D. LEONOR, espantada 

— Também tu!  


D. CECÍLIA 

— Só o nome! Perianto! É nome grego, titia; um delicioso nome  grego. (À parte.) Estou morta para saber do que se trata.  


D. LEONOR 

— Vocês fazem-me perder o juízo! Aqui andam bruxas, decerto.  Perianto de um lado, bromélias de outro; uma língua de gentios, avessa à gente cristã. Que  quer dizer tudo isso?  


D. CECÍLIA 

— Quer dizer que a ciência é uma grande coisa, e que não há remédio  senão adorar a botânica.  


D. LEONOR 

— Que mais?  


D. CECÍLIA

— Que mais? Quer dizer que a noite de hoje há de estar deliciosa, e  podemos ir ao teatro lírico. Vamos, sim? Amanhã é o baile do conselheiro e sábado o  casamento da Júlia Marcondes. Três dias de festas! Prometo divertir-me muito, muito,  muito. Estou tão contente! Ria-se, titia; ria-se e dê-me um beijo!  


D. LEONOR 

— Não dou, não, senhora. Minha opinião é contra a botânica, e isto  mesmo vou escrever ao barão.  


D. HELENA 

— Reflita primeiro; basta amanhã!  


D. HELENA 

— Há de ser hoje mesmo! Esta casa está ficando muito sueca;  voltemos a ser brasileiras. Vou escrever ao urso. Acompanha-me, Cecília; hás de contar-me  o que há! (Saem.)  


Cena XIII  

D. Helena, Barão  


D. HELENA 

— Cecília deitou tudo a perder... Não se pode fazer nada com  crianças.... Tanto pior para ela... (Pausa.) Quem sabe se tanto melhor para mim? Pode ser.  Aquele professor não é assaz velho, como convinha. Além disso, há nele um ar de diamante  bruto, uma alma apenas coberta pela crosta científica, mas cheia de fogo e luz. Se eu viesse a arder ou cegar... (Levanta os ombros.) Que idéia! Não passa de um urso, como titia lhe  chama, um urso com patas de rosas.  


BARÃO, aproximando-se 

— Perdão, minha senhora. Ao atravessar a chácara, ia  pensando no nosso acordo, e, sinto dizê-lo, mudei de resolução.  


D. HELENA 

— Mudou?  


BARÃO 

— Mudei.  


D. HELENA 

— Pode saber-se o motivo?  


BARÃO 

— São três. O primeiro é o meu pouco saber... Ri-se?  


D. HELENA

 — De incredulidade. O segundo motivo...  


BARÃO 

— O segundo motivo é o meu gênio áspero e despótico.  


D. HELENA

— Vejamos o terceiro.  


BARÃO 

— O terceiro é a sua idade. Vinte e um anos, não?  


D. HELENA 

— Vinte e dois.  


BARÃO 

— Solteira?  


D. HELENA 

— Viúva.  




(continua...)

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