Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Linha reta e linha curva

Por Machado de Assis (1871)

Emília levantou-se e dirigiu-se para o piano. 

- Não aborrece a música? perguntou ela abrindo o piano. 

- Adoro-a, respondeu o moço sem se mover; agora quanto aos executantes só gosto dos bons. Os maus dá-me ímpetos de enforcá-los. 

Emília executou ao piano os prelúdios de uma sinfonia. Tito ouvia-a com a mais profunda atenção. Realmente a bela viúva tocava divinamente. 

- Então, disse ela levantando-se, devo ser enforcada?

- Deve ser coroada. Toca perfeitamente. 

- Outro ponto em que não é original. Toda a gente me diz isso. 

- Ah! eu também não nego a luz do sol. 

Neste momento entrou na sala a tia de Emília. Esta apresentou-lhe Tito. A conversa tomou então um tom pessoal e reservado; durou pouco, aliás, porque Tito, travando repentinamente do chapéu, declarou que tinha que fazer. 

- Até quando? 

- Até sempre. 

Despediu-se e saiu. 

Emília ainda o acompanhou com os olhos por algum tempo, da janela da casa. Mas Tito, como se o caso não fosse com ele, seguiu sem olhar para trás. 

Mas, exatamente no momento em que Emília voltava para dentro, Tito encontrava o velho Diogo. 

Diogo ia na direção da casa da viúva. Tinha um ar pensativo. Tão distraído ia que chegou quase a esbarrar com Tito. 

- Onde vai tão distraído? perguntou Tito. 

- Ah! é o senhor? Vem da casa de D. Emília? 

- Venho. 

- Eu para lá vou. Coitada! há de estar muito impaciente com a minha demora. 

- Não está, não senhor, respondeu Tito com o maior sangue-frio. Diogo lançou-lhe um olhar de despeito. 

A isso seguiu-se um silêncio de alguns minutos, durante o qual Diogo brincava com a corrente do relógio, e Tito lançava ao ar novelos de fumaça de um primoroso havana. Um desses novelos foi desenrolar-se na cara de Diogo. O velho tossiu e disse a Tito: 

- Apre lá, Sr. Tito! É demais!

- O quê, meu caro senhor? perguntou o rapaz. 

- Até a fumaça! 

- Foi sem reparar. Mas eu não compreendo as suas palavras... 

- Eu me faço explicar, disse o velho tomando um ar risonho. Dê-me o seu braço... 

- Pois não! 

E os dous seguiram conversando como dous amigos velhos. 

- Estou pronto a ouvir a sua explicação. 

- Lá vai. Sabe o que eu quero? É que seja franco. Não ignora que eu suspiro aos pés da viúva. Peço-lhe que não discuta o fato, admita-o simplesmente. Até aqui tudo ia caminhando bem, quando o senhor chegou a Petrópolis. 

- Mas... 

- Ouça-me silenciosamente. Chegou o senhor a Petrópolis, e sem que eu lhe tivesse feito mal algum, entendeu de si para si que me havia de tirar do lance. Desde então começou a corte... 

- Meu caro Sr. Diogo, tudo isso é uma fantasia. Eu não faço a corte a D. Emília, nem pretendo fazer-lha. Vê-me acaso freqüentar a casa dela? 

- Acaba de sair de lá. 

- É a primeira vez que a visito. 

- Quem sabe? 

- Demais, ainda ontem não ouviu em casa de Azevedo as expressões com que ela se despediu de mim? Não são de mulher que... 

- Ah! isso não prova nada. As mulheres, e sobretudo aquela, nem sempre dizem o que sentem... 

- Então acha que aquela sente alguma cousa por mim?... 

- Se não fosse isso, não lhe falaria. 

- Ah! ora eis aí uma novidade.

- Suspeito apenas. Ela só me fala do senhor; indaga-me vinte vezes por dia de sua pessoa, dos seus hábitos, do seu passado e das suas opiniões... Eu, como há de acreditar, respondo a tudo que não sei, mas vou criando um ódio ao senhor, do qual não me poderá jamais criminar. 

- É culpa minha se ela gosta de mim? Ora, vá descansado, Sr. Diogo. Nem ela gosta de mim, nem eu gosto dela. Trabalhe desassombradamente e seja feliz. 

- Feliz! se eu pudesse ser! Mas não... não creio; a felicidade não se fez para mim. Olhe, Sr. Tito, amo aquela mulher como se pode amar a vida. Um olhar dela vale mais para mim que um ano de glórias e de felicidade. É por ela que eu tenho deixado os meus negócios à toa. Não viu outro dia que uma carta me chegou às mãos, cuja leitura me fez entristecer? Perdi uma causa. Tudo por quê? Por ela! 

- Mas ela não lhe dá esperanças? 

- Eu sei o que é aquela moça! Ora trata-me de modo que eu vou ao sétimo céu; ora é tal a sua indiferença que me atira ao inferno. Hoje um sorriso, amanhã um gesto de desdém. Ralha-me de não visitá-la; vou visitá-la, ocupa-se tanto de mim como de Ganimedes; Ganimedes é o nome de um cãozinho felpudo que eu lhe dei. Importa-se tanto comigo como com o cachorro... É de propósito. É um enigma aquela moça. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7891011...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →