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#Dramas#Literatura Brasileira

Mãe

Por José de Alencar (1860)

DR. LIMA - Sempre foi... Que profissão escolheu?

JORGE - Segui o seu conselho... Estudo medicina; estou no 5o ano.

DR. LIMA - E de fortuna... Como vamos?

JORGE - O necessário. As minhas lições..

DR. LIMA - Ah! Dá lições? De quê?

JORGE - De música e de francês.

DR. LIMA - Lembro-me que tinha muita disposição para o piano. Cultivou essa arte?

JOANA - Toca que faz gosto!... Vm. há de ouvir.

DR. LIMA - Sem dúvida. E quanto lhe rendem as lições?

JORGE - Uns cem mil-réis por mês.

DR. LIMA - É pouco.

JORGE - Faço também algumas traduções que deixam às vezes um extraordinário. Joana por seu lado ganha...

JOANA - Quase nada, nhonhô! Já estou velha. Não coso mais de noite.

JORGE - Nem eu quero. Foi de passares as noites sobre costura que ias perdendo a vista.

DR. LIMA - Faz bem em tratá-la com amizade, Jorge. É uma boa...

JOANA - Sou uma escrava como as outras.

JORGE - És uma amiga como poucas se encontram.

JOANA - Ora, nhonhô!...

JORGE - Sabe, doutor! Creio que foi Deus que o enviou a esta casa.

DR. LIMA - Por que razão, Jorge?

JORGE - Eu lhe digo... Vem cá, Joana!... Mais perto!... Quero contar-te uma história.

JOANA - Mas... Eu vou dar uma vista d'olhos lá dentro. JORGE - Espera. (Toma-lhe a mão.)

JOANA - Que é isso, nhonhô? Já se viu... Que modos?

JORGE - Olhe, doutor! Estou no meio de minha família. Meu segundo pai, minha segunda mãe! Não conheci os outros.

DR. LIMA - Jorge, meu amigo!

JOANA - Para que falar nestas coisas num dia de se estar alegre... Meu senhor doutor chegou... Nhonhô faz anos.

DR. LIMA - É verdade!... É hoje 3 de fevereiro...

JORGE - Escolhi justamente este dia para pagar-te uma dívida. Quem foi testemunha da dedicação, doutor, verá o reconhecimento.

JOANA - Nhonhô, me dê licença!

JORGE - Toma, Joana. Eu escrevi-a esta manhã lembrando-me de minha mãe.

DR. LIMA - Muito bem, Jorge. Deus o inspirou!

JOANA - Mas o quê... Que papel é este, nhonhô?

DR. LIMA - É a tua carta de liberdade, Joana!

JOANA - Não quero! Não preciso!

JORGE - Não é tua carta de liberdade, não, minha boa Joana; porque eu nunca te considerei minha escrava. É apenas um título para que não te envergonhes mais nunca da afeição que me tens.

JOANA - Mas eu não deixarei a meu nhonhô?

JORGE - A menos que tu não o exijas.

JOANA - Eu!... Que lembrança!

DR. LIMA - Não faz idéia do quanto me comove esta cena.

JORGE - As nossas almas se compreendem, doutor. Guarda, Joana, este papel...

JOANA - Por que nhonhô mesmo não guarda?

JORGE - De modo algum. Ele te pertence, manda-o registrar em um tabelião.

DR. LIMA - É prudente.

JORGE - Há muito tempo, doutor, que tencionava realizar este pensamento. Mas tinha tomado algum dinheiro com hipoteca...

DR. LIMA - Com hipoteca.!... Sobre Joana?

JOANA - Que mal fazia?

JORGE - Conheço que fui imprudente, mas a necessidade urgia.

DR. LIMA - Não o censuro, Jorge! O senhor não sabia...

JORGE - O que, doutor?

DR. LIMA - Não sabia... Quanto esses empréstimos são perigosos!...

JORGE - Felizmente já não sou devedor... Nem ao homem que me emprestou... Nem à minha consciência que me ordenava desse a Joana essa pequena prova da estima que lhe tenho. Resta-me ainda uma divida... Divida de amizade e gratidão que nunca poderei pagar.

DR. LIMA - A ela!... Por certo que nunca!

JOANA - A meu senhor!... A mim não. (Batem.)

 

CENA V

Os mesmos e GOMES JOANA - Sr. Gomes!


JORGE - Tenha a bondade de entrar.

GOMES - Desculpe se o incomodo, meu vizinho!

JORGE - Ao contrário, dá-me muito prazer... Por que não se senta?

DR. LIMA (a JOANA) - Agora podes ficar tranqüila! Terei forças de calar-me.

JOANA - Meu senhor... Não toque nisto... agora.

DR. LIMA - Que tem?... Não nos ouvem.

JOANA - Fale mais baixo!... Pelo amor de Deus!

JORGE (a GOMES) - Hoje me pareceu incomodado?

GOMES - Estou bom!

JORGE - Mas ainda o acho pálido.

GOMES - Não é nada!

JORGE - Ainda bem! Quero apresentar-lhe a um amigo que chegou-nos hoje de repente... Devo-lhe mais que a existência, devo-lhe a educação.

GOMES - Como?... Perdão! estava distraído!... Que dizia?

JORGE - Que desejava apresentar-lhe um amigo.

GOMES - Ah! Com muito gosto.

JORGE - Dr. Lima!... O senhor estimará fazer o conhecimento de uma pessoa que todos respeitam pela sua honradez... O Sr. Gomes... Empregado público.

DR. LIMA - Estimo muito!... Um médico pobre, sem clínica, que esteve cinco anos fora do seu país, de pouco presta, mas pode contar...

(continua...)

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