Por José de Alencar (1856)
"E, entretanto, nem sequer ainda me tinhas visto; se teus olhos haviam passado alguma vez por mim, tinha sido em um desses momentos em que a luz se volta para o íntimo, e se olha, mas não se vê.
"Consolava-me, porém, que algum dia o acaso nos reuniria, e então não sei o que me dizia que era impossível não me amares.
"O acaso deu-se, mas quando a minha existência já se tinha completamente transformado.
"Ao sair de um desses bailes, apanhei uma pequena constipação, de que não fiz caso. Minha mãe teimava que eu estava doente, e eu achava-me apenas um pouco pálida e sentia às vezes um ligeiro calafrio, que eu curava, sentando-me ao piano e tocando alguma música de bravura.
"Um dia, porém, achei-me mais abatida; tinha as mãos e os lábios ardentes, a respiração era difícil, e ao menor esforço umedecia-se-me a pele com uma transpiração que me parecia gelada.
"Atirei-me sobre um sofá e, com a cabeça recostada ao colo de minha mãe, caí em um letargo que não sei quanto tempo durou. Lembro-me somente que, no momento mesmo em que ia despertando dessa sonolência que se apoderara de mim, vi minha mãe, sentada à cabeceira de meu leito, chorando, e um homem dizia-lhe algumas palavras de consolo, que eu ouvi como em sonho:
— Não desespere, minha senhora; a ciência não é infalível, nem os meus diagnósticos são sentenças irrevogáveis.
Pode ser que a natureza e as viagens a salvem. Mas é preciso não perder tempo.
"O homem partiu.
"Não tinha compreendido as suas palavras, às quais não ligava o menor sentido.
"Passando um instante, ergui tranqüilamente os olhos para minha mãe, que escondeu o lenço e tragou em silêncio o seu pranto e os seus soluços.
"— Tu choras, mamãe?
"— Não, minha filha... não... não é nada.
"— Mas tu estás com os olhos cheios de lágrimas!... disse eu assustada.
"— Ah! sim!... uma notícia triste que me contaram há pouco... sobre uma pessoa... que tu não conheces.
"— Quem é este senhor que estava aqui?
"— É o Dr. Valadão, que te veio visitar.
"— Então eu estou muito doente, boa mamãe?
"— Não, minha filha, ele assegurou que não tens nada; é apenas um incômodo nervoso.
"E minha querida mãe, não podendo mais conter as lágrimas que saltavam dos olhos, fugiu, pretextando uma ordem a dar.
"Então, à medida que a minha inteligência ia saindo do letargo, comecei a refletir sobre o que se tinha passado.
"Aquele desmaio tão longo, aquelas palavras que eu ouvira ainda entre as névoas de um sono agitado, as lágrimas de minha mãe e a sua repentina aflição, o tom condoído com que o médico lhe falara.
"Um raio de luz esclareceu de repente o meu espírito.
Estava desenganada.
— O poder da ciência, o olhar profundo, seguro, infalível, desse homem que lê no corpo humano como em um livro aberto, tinha visto no meu seio um átomo imperceptível.
"E esse átomo era o verme que devia destruir as fontes da vida, apesar dos meus dezesseis anos, apesar de minha organização, apesar de minha beleza e dos meus sonhos de felicidade!"
Aqui terminava a primeira folha, que eu acabei de ler entre as lágrimas que me inundavam as faces e caíam sobre o papel.
Era este o segredo de sua estranha reserva; era a razão por que me fugia, por que se ocultava, por que ainda na véspera dizia que se tinha imposto o sacrifício de nunca ser amada por mim.
Que sublime abnegação, minha prima! E, como eu me sentia pequeno e mesquinho à vista desse amor tão nobre!
CAPÍTULO VII
Continuei a ler :
"Sim, meu amigo!...
"Estava condenada a morrer; estava atacada dessa moléstia fatal e traiçoeira, cujo dedo descarnado nos toca no meio dos prazeres e dos risos, nos arrasta ao leito, e do leito ao túmulo, depois de ter escarnecido da natureza, transfigurando as suas belas criações em múmias animadas.
"É impossível descrever-te o que se passou então em mim; foi um desespero mudo e concentrado, mas que me prostrou em uma atonia profunda; foi uma angústia pungente e cruel.
"As rosas da minha vida apenas se entreabriam e já eram bafejadas por um hálito infetado; já tinham no seio o germe de morte que devia fazê-las murchar!
"Meus sonhos de futuro, minhas tão risonhas esperanças, meu puro amor, que nem sequer ainda tinha colhido o primeiro sorriso, este horizonte, que há pouco me parecia tão brilhante, tudo isto era uma visão que ia sumir-se, uma luz que lampejava prestes a extinguir-se.
"Foi preciso um esforço sobre-humano para esconder de minha mãe a certeza que eu tinha sobre o meu estado e para gracejar dos seus temores, que eu chamava imaginários.
"Boa mãe! Desde então só viveu para consagrar-se exclusivamente à sua filha, para envolvê-la com esse desvelo e essa proteção que Deus deu ao coração materno, para abrigar-me com suas preces, sua solicitude e seus carinhos, para lutar à força de amor e de dedicação contra o destino.
(continua...)
ALENCAR, José de. Cinco Minutos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16677 . Acesso em: 14 jan. 2026.