Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

O funcionário receava transpor muito além a baliza do seu ofício, averiguando a espécie de filantropia que uma esposa honesta escondia de seu marido; mas o pecado da curiosidade, desculpado pela beleza da interrogada, esporeou-se até à indiscrição de perguntar-lhe:

― E essa pessoa infeliz é... é pessoa de quem seu marido possa... suspeitar... relações... menos louváveis?

Ângela doeu-se, ou, mais ao certo, pareceu corrida da pergunta, corando, e baixando os olhos silenciosa.

O administrador não instou, já convencido da impureza da caridade. Faltava sólida base para tal juízo; mas a malícia humana, se algumas vezes infama, adivinha outras. Desta vez, porém, o magistrado adivinhava apenas que naquele mistério o coração era grande parte.

― Bem – disse ele, violentando-se a respeitar o segredo alheio de sua alçada. – O que tenho averiguado é que vossa excelência mandou vender os seus brilhantes, e que a criada obedeceu às ordens de sua ama.

― Certamente.

― Pode portanto vossa excelência retirar-se, quando quiser, e a sua criada também. E estimarei – ajuntou ele com intencional mas delicada ironia – que vossa excelência consiga conciliar à sua boa ação a complacência do Sr. Fialho.

Deu ares de o não perceber a pálida esposa do brasileiro. Ergueu-se, e saiu. A criada, limpando as lágrimas, acompanhou-a.

VI AMIGOS DO SEU AMIGO

Já Hermenegildo Fialho estava aflito com a demora dos três parlamentários enviados à esposa. Não cuidava ele que Ângela comparecesse na polícia, ou se havia esquecido de ter concordado com a autoridade sobre a urgência da acareação entre ama e criada.

A paciência dava-lhe empurrões. Caia aquele sujeito sobre as molas das otomanas flácidas e fazia ringir os aços. Ressaltava com pasmosos saltos dum coxim para outro, e parecia tentar um suicídio por despejo da janela à calçada dos Clérigos, quando enxergou na Praça-nova Joaquim Antônio Bernardo, Pantaleão Mendes e Atanásio José da Silva.

Os solicitadores da honra de Fialho caminhavam à pressa e com ar de embezerrados. O brasileiro pregara os olhos neles, a ver se lhes lia alguma coisa nas fisionomias, cá do segundo andar onde os outros lhe viam a cara grande e escarlate como a lua dos teatros.

― O homem dá-lhe ataque apoplético! – disse Atanásio a Pantaleão.

― Asno será ele se lhe der algum ataque! – observou Joaquim Antônio, empregando a gramática e a filosofia do seu uso.

― Qual ataque nem qual diabo! – corroborou Pantaleão Mendes. – Um homem é um homem, sabe você, amigo Atanásio? E mulheres não faltam, física e moralmente falando. Haja dinheiro e saúde: o mais, regalório!

― Pois sim – redargüiu Atanásio, quando subiam a escada –; mas você não se vá pôr a dizer isto nem aquilo da mulher, percebe você? Conte o que se passou, e deixe obrar a natureza.

― Não me dê conselhos... – resmoneou Pantaleão. – Deixe o negócio por minha conta; que a honra dos meus amigos é como se fosse a minha.

Hermenegildo estava no topo da escada com os braços em cruz no costado, e o queixo debaixo caído e apoiado sobre o papo dos bócios.

― Então que há? – perguntou ele esgazeando pelas caras homogêneas dos três um relance de olhos penetrante. ― Vamos conversar – respondeu Pantaleão, levando-o de braço dado para a sala.

― Vocês tardaram tanto! – volveu o brasileiro.

― Estivemos à espera que a sua mulher se despachasse lá da polícia; depois, palavra puxa palavra, e deitou-nos a conferência a esta hora – explicou Atanásio, encarregando Pantaleão, por um gesto de cabeça, de ser o relator dos casos acontecidos.

O qual tirou do interior umas palavras, cortadas por pausas que davam à narrativa uns toques de seriedade, prejudicando o índole ridícula da cena.

― Senhor compadre – disse o marido de Francisca Ruiva. – Sua mulher não estava em casa; aqui o amigo Joaquim foi-lhe na peugada, e soubemos que ela tinha sido chamada à presença do administrador. Esperamos uma hora e pico. Nisto chegou ela e mais a criada. Estávamos sentados no banco do pátio, quando sua mulher deu conosco, e fez-se amarela como esse colete que você traz vestido. Erguemo-nos, fizemos-lhe as nossas cortesias, e disse eu que lhe queríamos uma palavrinha em particular. Mandou-nos subir, e chamou para dentro que nos abrissem a sala de visitas. Entramos, e daí a pouco chegou ela, assim com modos de quem se não importava muito conosco. Sentou-se, e perguntou o que queríamos; não foi isto, amigo Atanásio?

― Tal e qual; é como você diz.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7891011...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →