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#Ensaios#Literatura Brasileira

À Margem da História

Por Euclides da Cunha (1909)

Não o ligam sequer à terra. Um artigo do famoso "regulamento" torna-o eterno hóspede dentro da própria casa. Citemo-lo com todo o brutesco de sua expressão imbecil e feroz: "Todas as benfeitorias que o liqüidado tiver feito nesta propriedade perderá totalmente o direito uma vez que retire-se."

Daí o quadro doloroso que patenteiam, de ordinário, as pequenas barracas. O viajante procura-as e mal descobre, entre as sororocas, a estreitíssima trilha que conduz à vivenda, meio afogada no mato. É que o morador não despende o mais ligeiro esforço em melhorar o sítio de onde pode ser expelido em uma hora, sem direito à reclamação mais breve.

Esta resenha comportaria alguns exemplos bem dolorosos. Fora inútil apontálos. Dela ressalta impressionadoramente a urgência de medidas que salvem a sociedade obscura e abandonada: uma lei do trabalho que nobilite o esforço do homem; uma justiça austera que lhe cerceie os desmandos; e uma forma qualquer do homestead que o consorcie definitivamente à terra.

Rios em Abandono

O geógrafo norte-americano Morris Davis revelou o "ciclo vital" dos rios. Era uma concepção revolucionária; e não houve cientista jungido à enfezada geografia descritiva, dominante ainda entre nós, que se não escandalizasse ante o conceito desassombrado do yankee. Mas o antagonismo foi passageiro e frágil. Uma simples monografia, Rivers and Valleys of Pennsylvania, deslocou, de golpe, desde 1889, toda a fortaleza inerte da rotina; e firmou um novo rumo ao critério geográfico, não já apenas pelo associar à forma a estrutura dos terrenos, completando os fácies inexpressivos das superfícies com os elementos geológicos, senão também esclarecendo a gênese dos mais breves acidentes e descobrindo nas linhas pinturescas da móvel fisionomia da terra a expressão eloqüente das energias naturais que a modelaram e sem cessar a transfiguram. Por fim ninguém mais estranhou que Morris Davis, impelido aos últimos corolários da nova doutrina, se abalançasse a uma espécie de fisiologia monstruosa e descrevesse dramaticamente as complexas vicissitudes da existência milenária dos fartos cursos de águas, mostrando-no-los com uma infância irrequieta, uma adolescência revolta, uma virilidade equilibrada e uma velhice ou uma decrepitude melancólica, como se eles fossem estupendos organismos sujeitos à concorrência e à seleção, destinados ao triunfo, ou ao aniquilamento, consoante mais ou menos se adaptam às condições exteriores.

Não acompanharemos o genial biógrafo dos rios pensilvânicos no explanar a teoria admirável, que é o caso impressionador de uma entrada triunfante - ou de uma rush atrevida - da imaginação e da fantasia nos remansos da ciência. Basta-nos notar que ela foi aceita em toda a linha e é infrangível, esteando-se em dados indutivos e seguros.

Todas as caudais, de feito, atravessam períodos inevitáveis, de ritmos uniformes e constantes, malgrado a variabilidade do teatro em que se operam: a princípio indecisas, errantes e frágeis, derivando ao acaso, ao viés dos pendores, como à procura de um berço em cada dobra do chão, e acumulando-se nos numerosos lagos, incoerentemente esparsos, onde repousam; depois, definidas nas primeiras linhas de drenagem mais estáveis e fundas para onde convergem, adensadas, as chuvas, formando-se o aparelho das correntes, reprofundando-se os leitos esboçados e iniciando-se com a energia tumultuária das cachoeiras o choque secular com as asperezas da terra, longo tempo; até que, extintos os empeços estruturais, estabelecido um leito e definido um traçado, o rio se constitua, com os seus afluentes fixos, um declive contínuo em curvaturas regulares, um talvegue ajustado à contextura do solo e à diferenciação morfológica que lhe reflete a um tempo os seus vários estádios - das cabeceiras onde perduram as águas selvagens do antigo regime torrencial, ao curso médio que lhe caracteriza a situação presente, e ao trecho inferior, prefigurando-lhe a decrepitude, onde ele se espraia repousadamente e constrói pela colmatagem das vasas que acarreta com velocidade insensível, a própria planície aluvial em que descansa.

É a fase de madureza. O rio está na plenitude da vida, depois da molduragem complexa de todos os relevos. Atinge-a rematando um esforço pertinaz, que é por vezes toda a história geológica da região.

Não houve um ponto em todo o percurso de centenares ou de milhares de quilômetros que ele não atacasse, um grão de areia que não removesse, balanceando as escavações a montante com os aterros a jusante - construindo-se a si mesmo - obediente à tendência universal para as situações estáveis. Adquiriu, por fim, o seu perfil longitudinal de equilíbrio, e este, ainda abrupto nas vertentes, onde a correnteza é máxima e o volume mínimo, vem continuamente amortecendo-se, em sucessivo decair de declive, até ao quase horizontalismo no nível de base, da foz, onde aqueles elementos se invertem, resultando o equilíbrio dinâmico do sistema da relação inversa entre as massas liqüidas e as velocidades que se arrastam.

(continua...)

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