Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Quinhentos contos

Por Machado de Assis (1859)

— Nem a minha, disse Alves aproveitando aquelas palavras para criar uma situação favorável à retirada; e por isso estranho que a um pedido tão simples a senhora opusesse uma cláusula pecuniária, sem valor para as almas grandes, sobretudo, quando se trata de uma paixão como a que meu filho sente nesta ocasião.

— Que velhaco! pensou Batista.

Helena sorriu.

Alves continuou:

— Para lhe provar a grande paixão que meu filho sente pela senhora, basta dizer-lhe que, para acudir aos interesses daquele coração, não hesitei em quebrar a amizade deste amigo ligado a mim por tão largo tempo.

— Ah! disse Helena com simulada admiração.

— E por quê? porque o filho dele constituíra-se rival do meu, sem dúvida contra a vontade, mas enfim dominado pelos encantos de uma senhora tão formosa...

— Et cetera, disse Helena.

— Em resumo, disse Batista, és capaz de um sacrifício por mim?

— Como?

— Desistindo das tuas pretensões?

— Se é necessário, estou pronto...

— Mas não contam com o meu coração? interrompeu Helena. Suponham que...

— Perdão, disse Batista, posso supor o que quiser; mas eu só lhe peço que tenha a certeza de que a paixão de meu filho é indomável, e eu peço-lhe que me dê uma resposta favorável.

— Apesar da cláusula?

— Pois então!! Que nos importa a cláusula? O essencial para ele é ser amado. Consinta pois que eu lhe leve uma esperança. O rapaz vai embarcar para Europa; e quando voltar...

— Em que tempo?

— Não sei; mas há de voltar.

Helena compreendeu que esta cena não podia prolongar-se, e pôs termo dizendo que no dia seguinte mandaria uma resposta definitiva, porque desejava consultar segunda vez o avô.

Batista e Alves, que desejavam mesmo romper uma situação incômoda e ridícula, levantaram-se e despediram-se.

Chegando à porta disse Batista:

— Que te parece a cláusula?

— Uma tolice.

— Ou uma velhacaria!

Mas cada um deles dizia consigo:

— Ou uma arma.

E foram tomar um sorvete!

Quando o coronel voltou para casa, Helena contou-lhe a cena havida com os dois velhos, e concluiu dizendo:

— Mas ainda quando não fossem dois especuladores, e eu pudesse amar um dos filhos sem vexame para mim, ainda assim era impossível.

— Por quê? perguntou o velho.

— Porque o meu coração está dado.

O coronel estremeceu.

Helena continuou:

— E é agora a ocasião de dizer-lhe, meu avô; eu amo, e desejo casar-me outra vez.

— Ah!

— Não adivinha com quem?

— Adivinho.

Helena lançou-lhe os braços à roda do pescoço.

— E consente, não? disse ela.

— Ele embarca.

— Ele!

— Sim.

— Mas prometeu-me que não.

— Disse-me ontem que sim.

— Ah! é impossível! Vou mandar dizer-lhe que não vá, que venha ver-me... E sabe por que motivo quer embarcar? Porque é nobre de coração; porque não quer que o confundam com os namorados da minha fortuna! É preciso que ele não parta! — Há de partir, respondeu o velho.

— Por quê?

— Escuta, Helena, disse o coronel levando-a para o sofá. Se é essa a intenção que o leva a sair, é nobre da parte dele; mas há ainda um motivo que deve obrigá-lo a separar-se de nós.

— Um motivo? Qual?

— Há entre ele e nós uma linha de sangue; o pai dele matou teu pai.

Ouvindo esta revelação, Helena estremeceu, e levou as mãos aos olhos. Era que a recordação da morte do pai ainda a comovia profundamente. O coronel limpou duas lágrimas que lhe caíam pelas faces abaixo. Assim se passaram alguns minutos, no fim dos quais Helena levantando a cabeça disse:

— É uma fatalidade que as nossas famílias tenham esse lúgubre ponto de contacto; mas, enfim, ele não pode responder por crimes que não são seus, e o nosso casamento é um perdão que a caridade cristã está pedindo.

— Pois quê! insistes? disse o coronel.

— Por que não, meu avô?

— Mas, Helena, repara que...

— Ah! eu não sei guardar esses ódios que vão de geração em geração.

O coronel procurou ver se trazia a neta às suas idéias; mas foi impossível. Helena resistiu à argumentação do avô. No fim de uma hora a alternativa era esta: ou ceder ou brigar. O coronel cedeu.

CAPÍTULO VI

Máximo, que se preparava para partir, recebeu uma carta do coronel e de Helena pedindo-lhe que lá fosse. Suspeitou o que seria, e resolveu não ir. Mandou dizer que se achava doente, mas que daí a dois dias poderia cumprir as ordens deles. É que então já estaria fora.

Continuou, portanto, a tratar da viagem.

Mas até os maus se incumbiam de conspiração a favor de Helena. Quando Máximo contava estar livre, aparece-lhe em casa Alves Antas a reclamar-lhe a dívida que o doutor ainda não tinha pago.

Máximo pediu ainda uma espera, dizendo que mandaria o dinheiro apenas chegasse ao Sul. Alves não aceitou; Máximo foi obrigado a adiar a viagem a fim de ver se pagava antes de partir.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...678910Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →