Por Lima Barreto (1909)
Pelo almoço, a uma pergunta minha, o copeiro avisou-me que o padeiro tinha ido aos subúrbios e não voltaria senão à tarde. Almocei vagarosamente e tranqüilo. O dia estava fresco e azul. Pela janela avistava os grandes relvados do jardim, muito verdes e macios, de uma maciez de tapete e de um verde que afagava o olhar. Soavam onze horas quando sai do hotel e vim vindo a pé até às ruas centrais da cidade. Era cedo; não fui logo à Câmara. Fiquei vagueando pelas ruas à espera da hora conveniente. Cansado de andar pelo centro, aventurei-me tomar um daqueles bondes pequenos; chegando ao termo, bebi um refresco num botequim sórdido das proximidades e tomei outro bonde que, me informaram, levava à Câmara,. Não reparei que a meu lado se sentara um homem acobreado, de cabelo liso mas de barba rala e crespa, ar decidido e tórax forte; mas notara que, bancos adiante, um senhor de cartola, fraque e calças brancas, tomara lugar à direita de uma senhora, jovem ainda, cuja passagem pagara, sem que com ela trocasse sequer um olhar. Observei-os intrigado; em meio da viagem o vizinho segredou-me:
— Está vendo que pouca-vergonha!? Um senador bolinar!
Não entendi. Bolinar... Senador... O que era? O homem, entretanto, insistiu:
— Todo o dia é aquilo... Uma vergonha! Se fosse outro, mas um senador!
Por esse tempo, o par saltou, isto é, o senhor pouco antes, com o veículo em movimento, e a senhora saltou adiante; e ambos, ao jeito de desconhecidos, tomaram uma rua transversal. O meu vizinho não fez mais nenhuma observação, não me deixando, porém, de olhar durante a viagem toda e quando saltei, mal tinha pisado o passeio, cortou-me os passos interpelando-me:
— Olhe, menino, deixe-se disso, senão...
— Mas, o quê?
— Então não sabe? Ora, não se faça de besta, continuou, atirando o chapéu para o alto da cabeça.
— Mas...
— É isto que lhe digo; não se meta na vida de “Seu” Carvalho... É um graúdo, pode ter lá “seus arranjos” e não tem que dar satisfação a ninguém — fique sabendo!
— Eu!
— Sim, você.
Olhou-me durante instantes cheio de desafio e perguntou-me com redobrado atrevimento.
— Você não e repórter do O Azeite, um jornaleco que anda por ai?
Soube muito depois que O Azeite era um pequeno semanário em que se denunciavam os namoros e também, com grosseiros circunlóquios, os escândalos familiares e os adultérios da cidade.
A polícia sempre perseguia tais publicações; mas, mudando de título e talvez de proprietários, de quando em quando, ressurgiam com nomes mais ou menos sugestivos e imorais.
Houve um que se tornou célebre e durou bastante tempo: O Carbonário. Desapareceu e, daí em diante, os que vieram à publicidade não se demoraram na venda.
Não conhecia essa espécie de imprensa, e só mais tarde vim a saber que “azeite”, na gíria carioca, é namoro. Inocente em tudo, respondi com toda a candura:
— Eu, não senhor.
E com a humildade que ditava a minha segurança, expliquei ao notável “Chico Nove-Dedos” que havia chegado do interior, que não conhecia o Senador Carvalho, que nada sabia dos “seus arranjos”, e que ia entregar uma carta (mostrei-lha) a um deputado na Câmara, etc., etc.
O capanga acreditou, desculpou-se, disse-me o nome e ofereceu-me a casa. Dirigi-me para a Câmara. A minha simplicidade tinha julgado fácil falar a um deputado na Câmara. Era proibido; só se trouxesse ingresso; contudo, o porteiro disse-me que era melhor procurar o doutor Castro na sua residência, que me ensinou; e eu fui assistir à sessão para encher o tempo e para travar conhecimento com o misterioso trabalho de fazer leis para um pais. De fato, subi pensando no ofício de legislar que ia ver exercer pela primeira vez, em plena Câmara dos Senhores Deputados — augustos e digníssimos representantes da Nação Brasileira. Não foi sem espanto que descobri em mim um grande respeito por esse alto e venerável oficio. Lembrei-me daqueles velhos legisladores da lenda e da história: os Manus, os Licurgos, os Moisés, os Sólons, os Numas — esses nomes todos que os povos agradecidos pela fecundidade e pela sabedoria de suas leis reverenciaram por dilatados anos, ergueram-nos à altura de deuses, consagraram-lhes templos magníficos.
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.