Por Lima Barreto (1915)
A sala em que foram recebidos era ampla; mas estava tão cheia de mesas, estantes, pejadas de livros, pastas, latas, que mal se podia mover nela. Numa lata lia-se: Santa Ana dos Tocos; numa pasta: São Bonifácio do Cabresto.
- Os senhores não sabem, disse o velho poeta, que riqueza é a nossa poesia popular! Que surpresas ela reserva!... Ainda há dias recebi uma carta de Urubu-de-Baixo com uma linda canção. Querem ver?
O colecionador revolveu pastas e afinal trouxe de lá um papel onde leu:
Se Deus enxergasse pobre Não me deixaria assim: Dava no coração dela Um lugarzinho pra mim.
O amor que tenho por ela
Já não cabe no meu peito; Sai-me pelos olhos afora Voa às nuvens direito.
- Não é bonito?... Muito! Se os senhores conhecessem então o ciclo do macaco, a coleção de histórias que o povo tem sobre o símio?... Oh! Uma verdadeira epopéia cômica!
Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de alguém que encontrou um semelhante no deserto; e Albernaz, um momento contagiado pela paixão do folclorista, tinha mais inteligência no olhar com que o encarava.
O velho poeta guardou a canção de Urubu-de-Baixo, numa pasta; e foi logo à outra, donde tirou várias folhas de papel. Veio até junto aos dous visitantes e disse-lhes:
- Vou ler aos senhores uma pequena história do macaco, das muitas que o povo conta... Só eu já tenho perto de quarenta e pretendo publicá-las, sob o título Histórias do Mestre Simão.
E, sem perguntar se os incomodava ou se estavam dispostos a ouvir, começou:
“O macaco perante o juiz de direito. Andava um bando de macacos em troça, pulando de árvore em árvore, nas bordas de uma grota. Eis senão quando um deles vê no fundo uma onça que lá caíra. Os macacos se enternecem e resolvem salvá-la. Para isso, arrancaram cipós, emendaram-nos bem, amarraram a corda assim feita à cintura de cada um deles e atiraram uma das pontas à onça. Com o esforço reunido de todos, conseguiram içá-la e logo se desamarraram, fugindo. Um deles, porém, não pôde fazer a tempo e a onça segurou-o imediatamente.
- Compadre Macaco, disse ela, tenha paciência. Estou com fome e você vai fazer-me o favor de deixar-se comer.
O macaco rogou, instou, chorou; mas a onça parecia inflexível. Simão então lembrou que a demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. Foram a ele; o macaco sempre agarrado pela onça. É juiz de direito entre os animais o jabuti, cujas audiências são dadas à borda dos rios, colocando-se ele em cima de uma pedra. Os dous chegaram e o macaco expôs as suas razões. O jabuti ouviu-o e no fim ordenou:
- Bata palmas.
Apesar de seguro pela onça, o macaco pôde assim mesmo bater palmas. Chegou a vez da onça, que também expôs as suas razões e motivos. O juiz, como da primeira vez, determinou ao felino:
- Bata palmas.
A onça não teve remédio senão largar o macaco, que se escapou, e também o juiz, atirando-se n’água.”
Acabando a leitura, o velho dirigiu-se aos dous:
- Não acham interessante? Muito! Há no nosso povo muita intenção, muita criação, verdadeiro material para fabliaux interessantes... No dia em que aparecer um literato de gênio que o fixe numa forma imortal!... Ah! Então!
Dizendo isto, brincava nas suas faces um demorado sorriso de satisfação e nos seus olhos abrolhavam duas lágrimas furtivas.
- Agora, continuou ele, depois de passada a emoção, vamos ao que serve. “O Boi Espácio” ou o “Bumba-meu-boi” ainda é muita cousa para vocês... É melhor irmos devagar, começar pelo mais fácil... Está aí o “Tangolomango”, conhecem?
- Não, disseram os dous.
- É divertido. Arranjem dez crianças, uma máscara de velho, uma roupa estrambólica para um dos senhores, que eu ensaio.
O dia chegou. A casa do general estava cheia. Cavalcanti viera; e ele e a noiva, à parte, no vão de uma janela, pareciam ser os únicos que não tinham interesse pela folia. Ele, falando muito, cheio de trejeitos no olhar; ela, meio fria, deitando de quando em quando, para o noivo, um olhar de gratidão.
Quaresma fez o “Tangolomango”, isto é, vestiu uma velha sobrecasaca do general, pôs uma imensa máscara de velho, agarrou-se a um bordão curvo, em forma de báculo, e entrou na sala. As dez crianças cantaram em coro:
Uma mãe teve dez filhos
Todos os dez dentro de um pote: Deu o Tangolomango nele Não ficaram senão nove.
Por aí, o major avançava, batia com o báculo no assoalho, fazia hu! hu! hu!; as crianças fugiam, afinal ele agarrava uma e levava para dentro. Assim ia executando com grande alegria da sala, quando, pela quinta estrofe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista escura e caiu. Tiraram-lhe a máscara, deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a si.
O acidente, entretanto, não lhe deu nenhum desgosto pelo folklore. Comprou livros, leu todas as publicações a respeito, mas a decepção lhe veio ao fim de algumas semanas de estudo.
(continua...)
BARRETO, Lima. O triste fim de Policarpo Quaresma. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2028 . Acesso em: 8 maio 2026.