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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— É mesmo um tormento! E as injustiças? Já no meu curso, não me deram a medalha. Mas tenho trabalhado para subir. Esta sabe bem.

A mulher foi ao encontro do marido, dizendo angelicamente:

— A questão é esperar. Paciência... Não é só um caminho que leva a Roma.

— O doutor — disse então Benevenuto — pode gabar-se de ter muita paciência. As injustiças não lhe fazem mossa.

— Já estou habituado com elas.

— É uma grande vantagem na nossa vida — continuou o primo. — Sem esse hábito, não se ia para diante... Eu sei que, às vezes, a gente se revolta....

— Eu! — exclamou Numa — Eu! Não me revolto nunca. Trabalho, trabalho e consigo.

A amiguinha de Mme. Forfaible falou por aí, timidamente:

— Quem tem talento, como o doutor, consegue tudo.

— Não é tanto assim, menina! — fez Mme. Forfaible, com alguma irritação. — O talento serve muito, não há dúvida; mas é para ajudar os outros. Calaram-se e puseram-se a tomar o chá que esfriava nas xícaras.

CAPÍTULO II

O ar estava translúcido e fino. A manhã ia adiantada mas tinha ainda um pouco do encanto das primeiras horas. Botafogo é dos lugares do Rio de Janeiro aquele em que mais agradável é o amanhecer. A proximidade do mar e a vizinhança das altas montanhas, cobertas de vegetação, quando o sol é meigo, aí pelas primeiras horas do dia, casam-se, unem-se, fundem-se sob a luz macia e o céu azul, de tal forma que o encanto da manhã é inesquecível. Esquecemo-nos da áspera e violenta atmosfera das outras horas e mesmo de certas manhãs; deixamo-nos envolver na tênue e carinhosa gaze azulada do momento, totalmente, inteiramente, corpo e alma, idéias e sonhos, como se nos preparássemos para suportar os outros bravios instantes do dia.

Aquele dia amanhecera soberbo e quem andasse pelo arrabalde, pouco notaria as pretensiosas fachadas das casas, os gradis pelintras dos jardins, o movimento da criadagem, dos banhistas, para só aspirar o ar, aspirar e vê-lo e também as flores daqueles prudentes jardins minúsculos que bem medem a nossa riqueza, a nossa magnificência e o nosso luxo.

As palmeiras farfalhavam suavemente na rua Paissandu, levando o mar para as montanhas e trazendo a montanha para o mar; as árvores estremeciam na atmosfera e todos pareciam contentes. Os criados tagarelavam em grupos, cestos ao braço, mais animados para o árduo serviço; os caixeiros olhavam as cozinheiras com a ternura da manhã; os colegiais caminhavam brincando para as escolas; as patroas não tinham no rosto o enfado necessário do matrimônio, e os maridos, de volta do banho de mar, tiritavam alegres, sorridentes, esperançados nos seus negócios. A jocundidade da manhã porejava nas pessoas e nas coisas.

O diretor do Diário Mercantil, muito interessado no negócio da venda da Estrada de Ferro de Mato Grosso, tinha resolvido procurar Numa Pompílio, naquela manhã. Demandava a casa do deputado, sem notar a inocência e a bondade do momento e da paisagem, preocupado com a transação, desprezando as árvores, o ar, as montanhas, as flores e a gente.

Fuas Bandeira era português de nascimento e desde muito se achava no Brasil, metido em coisas de jornal. Homem inteligente, não era nem ignorante, nem instruído. Tinha a instrução e a inteligência de homem de comércio e pusera na sua atividade jornalística o seu espírito e educação comerciais. Escrevia, mas escrevia como um guarda-livros hábil. A influência da “correspondência” sentia-se bem na sua redação econômica de pontos, períodos longos, procurando dizer tudo sem suspender a pena.



(continua...)

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