Por Machado de Assis (1871)
O padre proferiu estas palavras em voz alta e intimativa. Jorge sentiu, a seu pesar, a influência da autoridade do bom velho. Não lhe respondeu. Barroso insistiu em obter dele a promessa de que procuraria carreira e triunfaria dos maus hábitos contraídos. Jorge refletiu algum tempo e respondeu:
— Pois bem, prometo emendar-me.
— É de coração?
Jorge hesitou.
— É, disse ele depois de algum tempo.
Não era de coração, mas o bom padre era um homem sincero; acreditava firmemente na sinceridade dos outros.
— Tanto melhor, disse ele. Emende-se, Jorge; verá que ganha com isso. Calcule a alegria que dará a seus pais. Quando me lembra...
O velho suspirou.
— Quando se lembra? repetiu Jorge.
— Quando me lembra, continuou Barroso, que você podia ser hoje um homem feliz ao lado de uma mulher feliz... de uma mulher que o amou...
— Uma mulher? perguntou Jorge. Quem era?
O padre ia a dizer o nome de Clarinha; mas lembrou-se repentinamente o perigo que podia haver nessa declaração, em vista do atual estado da moça.
Calou-se.
— Quem é essa mulher, repetiu Jorge?
O velho levantou-se sem responder.
Jorge olhava para ele e procurava na memória algum vestígio que lhe indicasse a mulher a quem o padre aludia. Não se lembrou de ninguém. Insistiu com o padre para que lho dissesse.
— De que serviria isso? respondeu o velho sacerdote; o bem que ela lhe podia fazer é já impossível...
— Impossível?
— Sim, impossível.
— Por quê?...
— Porque... morreu.
Jorge não acreditou que a pessoa de quem se tratava houvesse morrido, segundo dizia o padre.
— Mas se morreu, objetou ele, que mal há em dizer-me o nome dela? Espere... trata-se... querem ver... que essa moça é... Clarinha?
O padre abanou a cabeça.
— Não, não me engano, disse consigo o estróina, é ela!
— Não importa saber quem seja, disse Barroso; voltemos ao nosso ponto; o que lá vai, lá vai. Prometeu-me já emendar-se; está disposto a emendar-se?
Jorge teve o pudor de não repetir uma promessa que não estava disposto a cumprir; mas estendeu-lhe a mão com um gesto que parecia corresponder à pergunta do padre.
— Deus o ilumine, disse este. Vamos, faça que eu não morra sem o ver reabilitado. Fui eu que o batizei; não me deixe morrer com a idéia de que não pude salvar pela segunda vez uma alma que me foi confiada.
O padre disse estas palavras com paternal brandura, Jorge correspondeu a elas com uma aparência de humildade. Estava ansioso por sair. Despediu-se e saiu.
VII
BATALHA CAMPAL
Não saiu convertido, como pensava o austero velho; os conselhos e as promessas não lhe deixaram vestígios na memória. Dentre tudo o que lhe havia dito o padre Barroso, uma coisa flutuava no espírito de Jorge: era a idéia de que a Clarinha o amara. Se lho houvessem dito noutro tempo, é provável, é quase certo que Jorge levantaria os ombros e iria contar o caso aos amigos mais íntimos. Ser amado por ela, queria dizer um casamento, uma vida menos solta, obrigações sérias, coisas que Jorge achava inconciliáveis com a sua razão. Mas agora mudava o caso de figura; a idéia de que uma senhora casada o havia amado em solteira, abria aos olhos de Jorge uma perspectiva de esperanças e dava à sua vida um aspecto novo.
— Na verdade, dizia ele consigo, esta vida já me enfada. É bom descansar um pouco; achar-lhe-ei depois mais sabor. Um amor de romance tem toda a vantagem de ser uma coisa nova para mim. A Clarinha amou-me; quem sabe se me não amará ainda? Nestas e outras reflexões do mesmo teor, gastou Jorge a noite inteira. Meter-se numa aventura de romance, apaixonar-se pela prima, tinha até a vantagem de lhe dar aparências de reabilitação, pois forçosamente havia de consagrar a isso o tempo que era agora aplicado às loucuras da mocidade.
Com estas idéias, acordou no dia seguinte. Achou o pai ainda severo; e para começar a ilusão que premeditava não saiu de casa nesse dia. Recolheu-se ao gabinete, onde a mãe o foi encontrar a ler. Desse dia em diante, adotou um programa de vida, que de todo ponto iludiu a família e o padre. Silvestre recobrava a alegria que o sucesso do teatro lhe fizera perder, enquanto o padre, cheio de sincero regozijo, perdoava de coração as loucuras do rapaz. A felicidade ia renascendo naquela casa.
Até então, quando Clarinha ia visitar os tios não encontrava o primo em casa, o que era para ela uma grande felicidade. A primeira vez que lá foi, depois dos acontecimentos que acabo de referir, não só o achou em casa, mas até lhe pareceu mudado o tom das relações entre ele e os pais. Antes falavam dele com lástima, agora rejubilavam-se ao pé do filho pródigo. Marques não hesitou em manifestar o seu pasmo ao vê-lo restituído ao lar doméstico.
— Que quer? respondeu Jorge; estou curado.
— Para sempre?
— Para sempre.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caminho de Damasco. Jornal das Famílias, 1871.