Por Machado de Assis (1862)
Parece que V. S. ficou engasgado com os meus trinta e oito anos! Supõe talvez que eu seja um Matusalém? Está enganado. Como me vê, faço andar à roda muita cabecinha de moça. A propósito, não acha esta viúva uma bonita senhora?
VALENTIM
Acho.
INOCÊNCIO
Pois é da minha opinião! Delicada, graciosa, elegante, faceira, como ela só... Ah!
VALENTIM
Gosta dela?
INOCÊNCIO
(com indiferença)
Eu? gosto. E V. S.?
VALENTIM
(com indiferença)
Eu? gosto.
INOCÊNCIO
(com indiferença)
Assim, assim?
VALENTIM
(com indiferença)
Assim, assim.
INOCÊNCIO
(contentíssimo, apertando-lhe a mão)
Ah! meu amigo!
Cena IX
VALENTIM, INOCÊNCIO, CARLOTA
VALENTIM
Aguardávamos a sua chegada com a sem-cerimônia de pessoas íntimas.
CARLOTA
Oh! Fizeram muito bem! (senta-se)
INOCÊNCIO
Não ocultarei que estava ansioso pela presença
CARLOTA
Ah! obrigada... Aqui estou! (um silêncio) Que novidades há, Sr. Inocêncio?
INOCÊNCIO
Chegou o paquete.
CARLOTA
Ah! (outro silêncio) Ah! chegou o paquete? (levanta-se)
INOCÊNCIO
Já tive a honra de...
CARLOTA
Provavelmente traz notícias de Pernambuco?... do cólera?...
INOCÊNCIO
Costuma a trazer...
CARLOTA
Vou mandar ver cartas... tenho um parente no Recife... Tenham a bondade de esperar...
INOCÊNCIO
Por quem é... não se incomode. Vou eu mesmo.
CARLOTA
Ora! tinha que ver...
INOCÊNCIO
Se mandar um escravo ficará na mesma... demais, eu tenho relações com a administração do correio... O que talvez ninguém possa alcançar já e já, eu me encarrego de obter.
CARLOTA
A sua dedicação corta-me a vontade de impedi-lo. Se me faz o favor...
INOCÊNCIO
Pois não, até já! (beija-lhe a mão e sai)
Cena X
CARLOTA, VALENTIM
CARLOTA
Ah! ah! ah!
VALENTIM
V. Exa. ri-se?
CARLOTA
Acredita que foi para despedi-lo que o mandei ver cartas ao correio?
VALENTIM
Não ouso pensar...
CARLOTA
Ouse, porque foi isso mesmo.
VALENTIM
Haverá indiscrição em perguntar com que fim?
CARLOTA
Com o fim de poder interrogá-lo acerca do sentido de suas palavras quando daqui saiu.
VALENTIM
Palavras sem sentido...
CARLOTA
Oh!
VALENTIM
Disse algumas coisas... tolas!
CARLOTA
Está tão calmo para poder avaliar desse modo as suas palavras?
VALENTIM
Estou.
CARLOTA
Demais, o fim trágico que queria dar a uma coisa que começou por idílio... devia assustá-lo.
VALENTIM
Assustar-me? Não conheço o termo.
CARLOTA
É intrépido?
VALENTIM
Um tanto. Quem se expõe à morte não deve temê-la em caso nenhum.
CARLOTA
Oh! Oh! poeta, e intrépido de mais a mais.
VALENTIM
Como lord Byron.
CARLOTA
Era capaz de uma segunda prova do caso de Leandro?
VALENTIM
Era. Mas eu já tenho feito coisas equivalentes.
CARLOTA
Matou algum elefante, algum hipopótamo?
VALENTIM
Matei uma onça.
CARLOTA
Uma onça?
VALENTIM
Pele malhada das cores mais vivas e esplêndidas; garras largas e possantes; olhar fulvo, peito largo e duas ordens de dentes afiados como espadas.
CARLOTA
Jesus! Esteve diante desse animal!
VALENTIM
Mais do que isso; lutei com ele e matei-o.
CARLOTA
Onde foi isso?
VALENTIM
Em Goiás.
CARLOTA
Conte essa história, novo Gaspar Correia.
VALENTIM
Tinha eu vinte anos. Andávamos à caça eu e mais alguns. Internamo-nos mais do que devíamos pelo mato. Eu levava comigo uma espingarda, uma pistola e uma faca de caça. Os meus companheiros afastaram-se de mim. Tratava de procurá-los quando senti
passos... Voltei-me...
CARLOTA
Era a onça?
VALENTIM
Era a onça. Com o olhar fito sobre mim parecia disposta a dar-me o bote. Encarei-a, tirei cautelosamente a pistola e atirei sobre ela. O tiro não lhe fez mal. Protegido pelo fumo da pólvora, acastelei-me atrás de um tronco de árvore. A onça foi-me no encalço, e durante algum tempo andamos, eu e ela, a dançar à roda do tronco. Repentinamente levantou as patas e tentou esmagar-me abraçando a árvore, mais rápido que o raio, agarrei-lhe as mãos e apertei-a contra o tronco. Procurando escapar-me, a fera quis morder-me em uma das mãos; com a mesma rapidez tirei a faca de caça e cravei-lhe no pescoço; agarrei-lhe de novo a pata e continuei a apertá-la, até que os meus companheiros, orientados pelo tiro, chegaram ao lugar do combate.
CARLOTA
E mataram?...
VALENTIM
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caminho da porta. Rio de Janeiro, 1862.