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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Ao menos temos aqui com que entreter os queixos. E, dispondo tudo sobre uma cadeira, principiou a expor o conteúdo dos pacotes e das caixinhas de doce: Felizmente a garrafa está aberta e o púcaro dágua serve para beber vinho. Não acha que isto veio a propósito?

- É, resmungou o Coruja.

- Pois então, mãos à obra! Gosta de vinho?

- Não sei...

- Como não sabe?

- Nunca provei.

- Nunca? Oh!

- É exato.

- Pois experimente. Há de gostar.

André entornou no púcaro três dedos de vinho e bebeu-o de um trago.

- Que tal? perguntou o outro fazendo o mesmo.

- É bom! disse Coruja a estalar a língua.

- Com um pouco de queijo e doce ainda é melhor, atire-se!

André não se fez rogado, e os dois meninos, em face um do outro, puseram-se a petiscar, como bons amigos. Teobaldo, porém, depois de repetir várias vezes a dose do vinho, precisava dar expansão ao seu gênio comentador e satírico; ao passo que o companheiro saboreava em silêncio aqueles delicados pitéus, que chamavam ao mal confortado paladar delícias inteiramente novas e desconhecidas para ele.

E contentava-se a resmungar, de vez em quando:

- É muito bom? É muito bom!

- Pois eu, sempre que receber presentes lá de e prometeu o outro, hei de chamá-lo para participar deles. Está dito?

- Está.

- Você chama-se...

- André.

- De...

- Miranda.

- André Miranda.

- De Melo.

- Ah!

- E Costa.

- Não sabia. Como todos no colégio só o tratam por "Coruja"...

- É alcunha.

- Foi aqui que lha puseram?

- Foi.

- Por quê?

- Porque eu sou feio.

- E não fica zangado quando lhe chamam assim?

- Não.

- Eu também faria o mesmo, se me pusessem alguma. Os nossos colegas são todos uns pedaços dasnos, não acha?

Coruja sacudiu os ombros e Teobaldo, um pouco agitado pelo Madeira, começou a desabafar todo o ressentimento que até ai reprimia com tanto orgulho. Falou francamente, queixou-se dos companheiros, julgou-os a um por um, provando que eram todos aduladores e invejosos.

- Não quero saber deles para nada! exclamou indignado. Você é o único com que me darei!

E, muito loquaz e vário, passou logo a falar dos colégios europeus, do modo pelo qual aí se tratavam entre si os estudantes, dos modos de brincar, de estudar em comum, do modo, enfim, pelo qual se protegiam e estimavam.

André o escutava, sem dar uma palavra, mas patenteando no rosto enorme interesse pelo que ouvia.

Era a primeira vez que se achava assim, em comunicação amistosa com um seu semelhante; era a primeira vez que alguém o escolhia para confidente, para íntimo. E sua alma teve com a surpresa deste fato o mesmo gozo de impressões que experimentara ainda há pouco o seu paladar com os saborosos doces até aí desconhecidos para ele. E o Coruja, a quem nada parecia impressionar, começou a sentir afeição por aquele rapaz, que era a mais perfeita antítese do seu gênio e da sua pessoa.

Quando Salustiano veio abrir-lhes a porta à hora do jantar, encontrou Teobaldo de pé, a discursar em voz alta, a gesticular vivamente, defronte do outro que, estendido na cadeira, toscanejava meio tonto.

- Então? exclamou o homem das barbas longas. - Que significa isto?

- Isto quê, ó meu cara de quebra-nozes? interrogou Teobaldo soltando-lhe uma palmada na barriga.

- Menino! repreendeu o homem; não quero que me falte ao respeito!

- E um pouco de Madeira, não queres também?

- O senhor bem sabe que aqui no colégio é proibido aos alunos receberem vinho.

- Para os outros, não duvido! Eu hei de receber sempre, se não digo ao velho que não empreste mais um vintém ao diretor.

- Não fale assim... O senhor não se deve meter nesses negócios.

- Sim, mas em vez de estares aí a mastigar em seco e a lamber os beiços, é melhor que mastigues um pouco de requeijão com aquele doce.

- Muito obrigado.

- Não tem muito obrigado. Coma!

E Teobaldo, com sua própria mão, meteu-lhe um doce na boca.

- Você é o diabo! considerou Salustiano, já sem nenhum sinal de austeridade. E, erguendo a garrafa à altura dos olhos: - Pois os senhores dois beberam mais de meia garrafa de vinho? !.

André ao ouvir isto, começou a rir a bandeiras despregadas, o que fazia talvez pela vez primeira em sua vida.

Pelo menos, o fato era tão estranho que tanto Salustiano como Teobaldo caíram também na gargalhada.

- E não é que estão ambos no gole?... disse homem, a cheirar a boca da garrafa e, sem lhe resistir ao bom cheiro, despejou na própria o vinho que restava.

- Que tal a pinga? perguntou Teobaldo.

- É pena ser tão mal empregada... responde o barbadão a rir.

(continua...)

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