Por Machado de Assis (1868)
Dous dias andou Vasconcelos cheio deste pensamento. Não saía de casa. Quando Gomes chegava, Vasconcelos observava a mulher com desusada persistência; a própria frieza com que ela recebia o rapaz era aos olhos do marido uma prova do delito.
Estava nisto, quando na manhã do terceiro dia (Vasconcelos já se levantava cedo) entrou-lhe no gabinete o irmão, sempre com ar de selvagem costume.
A presença de Lourenço inspirou a Vasconcelos a idéia de contar-lhe tudo.
Lourenço era um homem de bom senso, e em caso de necessidade era um apoio.
O irmão ouviu tudo quanto Vasconcelos contou, e concluindo este, rompeu o seu silêncio com estas palavras:
- Tudo isso é uma tolice; se tua mulher recusa o casamento, será por qualquer outro motivo que não esse.
- Mas é o casamento com o Gomes que ela recusa.
- Sim, porque lhe falaste no Gomes; fala-lhe em outro, talvez recuse do mesmo modo. Há de haver outro motivo; talvez Adelaide lhe contasse, talvez lhe pedisse para opor-se, porque tua filha não ama o rapaz, e não pode casar com ele.
- Não casará.
- Não só por isso, mas até porque...
- Acaba.
- Até porque este casamento é uma especulação do Gomes.
- Uma especulação? perguntou Vasconcelos.
- Igual à tua, disse Lourenço. Tu dás-lhe a filha com os olhos na fortuna dele; ele aceita-a com os olhos na tua fortuna...
- Mas ele possui...
- Não possui nada; está arruinado como tu. Indaguei e soube da verdade. Quer naturalmente continuar a mesma vida dissipada que teve até hoje, e a tua fortuna é um meio...
- Estás certo disso?
- Certíssimo!...
Vasconcelos ficou aterrado. No meio de todas as suspeitas, ainda lhe restava a esperança de ver a sua honra salva, e realizado aquele negócio que lhe daria uma excelente situação.
Mas a revelação de Lourenço matou-o.
- Se queres uma prova, manda chamá-lo, e dize-lhe que estás pobre, e por isso lhe recusas a filha; observa-o bem, e verás o efeito que as tuas palavras lhe hão de produzir.
Não foi preciso mandar chamar o pretendente. Daí a uma hora apresentou-se ele em casa de Vasconcelos.
Vasconcelos mandou-o subir ao gabinete.
Capítulo VII
Logo depois dos primeiros cumprimentos Vasconcelos disse:
- Ia mandar chamar-te.
- Ah! para quê? perguntou Gomes.
- Para conversarmos acerca do... casamento.
- Ah! há algum obstáculo?
- Conversemos.
Gomes tornou-se mais sério; entrevia alguma dificuldade grande. Vasconcelos tomou a palavra.
- Há circunstâncias, disse ele, que devem ser bem definidas, para que se possa compreender bem...
- É a minha opinião.
- Amas minha filha?
- Quantas vezes queres que to diga?
- O teu amor está acima de todas as circunstâncias?...
- De todas, salvo aquelas que entenderem com a felicidade dela.
- Devemos ser francos; além de amigo que sempre foste, és agora quase meu filho... A discrição entre nós seria indiscreta...
- Sem dúvida! respondeu Gomes.
- Vim a saber que os meus negócios param mal; as despesas que fiz alteraram profundamente a economia da minha vida, de modo que eu não te minto dizendo que estou pobre.
Gomes reprimiu uma careta.
- Adelaide, continuou Vasconcelos, não tem fortuna, não terá mesmo dote; é apenas uma mulher que eu te dou. O que te afianço é que é um anjo, e que há de ser excelente esposa.
Vasconcelos calou-se, e o seu olhar cravado no rapaz parecia querer arrancar-lhe das feições as impressões da alma.
Gomes devia responder; mas durante alguns minutos houve entre ambos um profundo silêncio.
Enfim o pretendente tomou a palavra.
- Aprecio, disse ele, a tua franqueza, e usarei de franqueza igual.
- Não peço outra cousa...
- Não foi por certo o dinheiro que me inspirou este amor; creio que me farás a justiça de crer que eu estou acima dessas considerações. Além de que, no dia em que eu te pedi a querida do meu coração, acreditava estar rico.
- Acreditavas?
- Escuta. Só ontem é que o meu procurador me comunicou o estado dos meus negócios.
- Mau?
- Se fosse isso apenas! Mas imagina que há seis meses estou vivendo pelos esforços inauditos que o meu procurador fez para apurar algum dinheiro, pois que ele não tinha ânimo de dizer-me a verdade. Ontem soube tudo!
- Ah!
- Calcula qual é o desespero de um homem que acredita estar bem, e reconhece um dia que não tem nada!
- Imagino por mim!
- Entrei alegre aqui, porque a alegria que eu ainda tenho reside nesta casa; mas a verdade é que estou à beira de um abismo. A sorte castigou-nos a um tempo...
Depois desta narração, que Vasconcelos ouviu sem pestanejar, Gomes entrou no ponto mais difícil da questão.
- Aprecio a tua franqueza, e aceito a tua filha sem fortuna; também eu não tenho, mas ainda me restam forças para trabalhar.
- Aceitas?
(continua...)
ASSIS, Machado de. O segredo de Augusta. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.