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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Pois seria possível que aquela doce e mísera criatura se partisse desta vida, sem lhe deixar ao menos reduzir o novo desgosto, que ele involuntariamente lhe cravara no coração já tão magoado?... Pois então agora, quando justamente meditava ele os meios de reabilitar­se aos olhos dela, disposto a reagir por uma vez contra todas as degradações a que o arrastara a outra, é que Eugênia lhe fugia para sempre?... E lhe fugia levando consigo, no seu vôo externo, a lancinante impressão do último olhar que os dois entre si trocaram, ela de asas prestes a ganhar o azul, ele de rastros, a espolinhar­se no mais negro lodo da terra!

— Pobre Eugênia! murmurou arquejando o desgraçado. Nem de te chorar são dignas estas impuras lágrimas nascidas em antro tão imundo. Perdoa­me insultar­te ainda a branca memória com esta minha dor hipócrita e covarde. Nelas não creias, nem com elas se enterneça a tua alma compassiva e meiga! Fui eu quem te matou! Fui eu o teu algoz, anjo envenenado pelo amor que te inspirei! Desceste ao pântano, imaculada pomba; deletérios miasmas foi o que encontraste em lugar de amor que procuravas no meu coração de lobo. E agora choras tu, miserável! Cala­te, que o teu pranto põe feias nódoas na virginal mortalha da tua vítima! Traga em silêncio o remorso do teu crime, e volta à tua lama, libertino! Mergulha de novo na vasa em que agora bracejas aflito, e não levantes sequer o pensamento àquela que no mundo só teve uma falha cometida — a de haver um dia suposto digno de ser amado por ela!

E Gabriel, sufocado por uma nova explosão de soluços, rugiu apertando a cabeça entre as mãos:

— Maldito seja eu, contra quem tudo conspira! Foi­se­me a última esperança de salvação! Já nada me resta na vida! Acabou­se tudo!

— Ainda não! bradou numa voz à porta do quarto. Ainda te resta um amigo!

Gaspar! gritou o moço, caindo nos braços do padrasto. Perdoa­ me, meu Gaspar!

— Cheguei neste instante e ainda não sei onde tenho a cabeça! disse o Médico Misterioso. Imagina que estava em Cantagalo à cabeceira de um moribundo, quando recebi de Pernambuco uma carta de meu cunhado Paulo Mostella, na qual me participava a crítica situação dos seus negócios e o estado perigoso da mulher. Podes calcular como fiquei com semelhante notícia; eu adorava minha irmã, era ela o último laço da infância que me restava no mundo... Três dias depois, meu doente de Cantagalo expirou. Não esperei por mais nada, corri a Pernambuco, sem me despedir de ti. Chego a essa cidade justamente no dia da falência de Paulo, e encontro Virgínia completamente perdida... Meus esforços foram baldados! Morreu­me nos braços! Paulo tinha de entregar­se no dia seguinte à prisão, a sua quebra foi considerada fraudulenta... mas, quando no momento terrível lhe invadiram o escritório, deram com o seu cadáver aos pés da secretária. Envenenara­se com ópio. Ao lado dele estava esta carta a mim dirigida.

E Gaspar tirou uma carta do bolso, e leu:

"Meu cunhado e amigo.

"Escrevo­lhe na ocasião de morrer, e se lanço mão deste último recurso, é porque confio que o senhor olhará por meu pobre órfão, e nessa hipótese morro descansado.

"Estou desonrado e estou viúvo; isto é, perdi as duas únicas cousas que me faziam viver — minha honra e minha família.

"Gustavo já não é uma criança, tem dezenove anos e pode principiar a vida sem o meu auxílio; peçolhe, porém, que o ajude com os seus conselhos e com a sua estima.

"Adeus, beijo­lhe as mãos e agradeço­lhe tudo o que fez, e tudo o que fará por nos. — Paulo Mostella".

— Marido e mulher foram enterrados na mesma ocasião e no mesmo lugar, continuou o Médico Misterioso. No dia seguinte, tratei do órfão, e uma semana depois partimos para cá. Mas, trazia comigo uma idéia que muito me preocupava; é que a pessoa encarregada de dar­me notícias tuas me havia escrito, dizendo que Ambrosina fugira com a filha do meu cocheiro; que este morrera de desgostos, e tu procuravas morrer de extravagâncias... Falaram­me de orgias, de desvarios, do diabo! Vinha, enfim, impaciente por tornar a ver­te, quando te acho neste estado de desespero... Já sei! Eugênia morreu, e tu sentes remorsos.. Mas eu cá estou para amparar­te! É preciso que te resignes ao sofrimento e à decepção; a vida, meu filho, não é outra cousa! Entretanto, no dia em que te visse perdido para sempre, creio que não resistiria a esse último golpe, pois és agora a única afeição que me resta... Desvelei­me por ti, fui teu pai, teu amigo e teu guia; suponho que me assiste o direito de pedirte um favor... Esse favor é que vivas, que trabalhes! é que não te deixes morrer, quando por mais nada, ao menos em consideração a mim!

— E que me importam a vida e o trabalho? Conto eu porventura com a existência? Ah! para o que tenha de viver ainda, não serão, de certo os meios pecuniários que me faltarão!

(continua...)

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