Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Que bom padre teve essa idéia não sei. Em que ano foi ela realizada também ignoro. Mas é verdade que a irmandade dos clérigos de S. Pedro é uma das mais antigas na cidade do Rio de Janeiro e devia ter tido princípio antes de 1539, porque nesse ano um tal Gonçalo de Távora, por verba testamentária, mandou dizer algumas missas a S. Pedro na ermida de S. José. Ora, na ermida de S. José foi que os padres estabeleceram a sua irmandade, que, sem dúvida, começou com o caráter de simples devoção.
O desamor aos papéis velhos, o descuido e o abandono a que entregam livros, apontamentos e memórias ao bolor e à traça tornaram os primeiros tempos da nossa história em uma noite mais ou menos profunda, em que se anda às apalpadelas à procura de tudo, e até mesmo à procura do berço da irmandade do santo príncipe dos apóstolos, do santo que tem as chaves das portas do Céu.
Não pude dizer o ano em que começou a devoção de São Pedro, e não posso marcar o ano em que teve princípio regular e legal a irmandade que do prelado do Rio de Janeiro, Manuel de Sousa e Almada, recebeu o seu compromisso.
E – coisa singular! – monsenhor Pizarro, que nas suas Memórias do Rio de Janeiro lança sobre todas estas coisas a maior luz possível, desesperado de não poder determinar as suas datas com o testemunho dos vivos, apela para o testemunho dos mortos, e com os mortos se arranja. Assim, no primeiro caso, foi o defunto Gonçalo Lopes de Távora que lhe disse com a sua verba testamentária – a devoção de São Pedro começou antes de 1639. E na questão do compromisso da irmandade, é ainda o defunto Francisco Dutra de Leão, falecido a 25 de agosto de 1661, quem, determinando no seu testamento que o acompanhasse no seu enterro a irmandade de S. Pedro dos clérigos, e não sendo obedecido “por isso não estar em uso”, ensina a monsenhor Pizarro que para isso não estar em uso era necessário que muito antes do ano de 1661 já estivesse organizada a irmandade.
Realmente é bem triste que se ande a pedir aos mortos explicações das coisas deste mundo.
Organizada a irmandade dos clérigos de São Pedro, continuou o príncipe dos apóstolos a ser por ela festejado na ermida de São José durante todo o resto do século XVII. Está, porém, decidido que ninguém pode, nem mesmo as imagens dos santos, morar em casa alheia.
A irmandade de S. José achou-se, de súbito, fatigada da hospitalidade que prestava a irmandade de S. Pedro, e desde que assim se sentiu, começou a manifestar cada vez mais franca e bem claramente a sua má vontade.
Por fim de contas, brigaram em nome de São Pedro e de São José as competentes irmandades.
Não vos admire essa briga de devotos e de filhos da mesma Igreja. Muito pior do que a irmandade de S. Pedro sucedeu ao cabido da Sé, que andou da igreja de S. Sebastião para a da Santa Cruz e desta para a do Rosário, sempre aos empurrões, e maltratado e humilhado, até que descansou de tantos trabalhos, acolhido na capela real e hoje imperial.
E nem vos pode surpreender essa briga de católicos em nome de santos, porque não há abuso que se não tenha cometido à sombra dos mais sagrados objetos. Para não amontoar desagradáveis recordações, basta lembrar as torturas e as abominações praticadas e as horrorosas fogueiras da Inquisição, acesas pelos dominicanos em nome do Deus de piedade, de misericórdia e de perdão.
As questões e desinteligências entre as irmandades de São Pedro e de São José acabaram como naturalmente deviam acabar. Os donos da casa venceram. São José ficou na sua ermida e São Pedro foi despedido e posto na rua.
Já nesse tempo, estava criado o bispado do Rio de Janeiro, e o nosso segundo bispo, D. Francisco de S. Jerônimo, foi presente, no dia 23 de setembro de 1705, à mudança da irmandade de São Pedro da ermida de São José para a igreja de N. Sra do Parto, onde permaneceu tranqüila durante perto de trinta anos.
Ainda então não havia sido fundado o recolhimento de N. Sra do Parto, e longe estava a noite pavorosa de 24 de agosto de 1789, em que o incêndio por pouco não devorou de todo e a um tempo a casa do recolhimento e a igreja contígua.
Mais de cinqüenta anos antes dessa catástrofe, a imagem de S. Pedro ocupava já o altar-mor da sua pequena, porém, interessante igreja.
É coisa enfadonha passar sempre a vida em casa alheia.
A irmandade dos clérigos de São Pedro acabava de ganhar um poderoso protetor no bispo D. frei Antônio de Guadalupe, e animada por ele, determinou fundar um templo consagrado a São Pedro.
O padre Francisco Barreto de Meneses doou, por escritura de
9 de outubro de 1732, celebrada na nota do tabelião Manuel Salgado Cruz, um
terreno com dez e meia braças de testada e treze de fundo, na rua então chamada
do Carneiro, à igreja de S. Pedro, para a obra da qual o bispo Guadalupe
concorreu logo com alguns mil cruzados.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.