Por José de Alencar (1872)
De prevenção e à pressa lhe envio estas linhas. Estou ocupado com um trabalho importante, que devo concluir até amanhã; e receio me roube o tempo que eu destino para conversar com aquelas a quem amo.
Mas trabalhando, não tenho eu sempre vivas em minha alma, para dar-lhe coragem, a sua imagem, minha querida mãe, a de Bela, de Luisinha, de todos aqueles por cuja felicidade eu rogo a Deus todos os dias? Abençoe-me, querida mãe; e dê a Bela o santo beijo que eu de longe não posso receber. Seu filho
Ricardo
18 de agosto de 1871.”
Quando Luisinha terminou a leitura da breve carta duas lágrimas rolavam pelas faces de D. Benvinda, que parecia absorvida na imagem do filho ausente. Bela se erguera, e enxugando com o lenço de cambraia as faces da velha, dobrou os joelhos para receber na fronte o beijo de Ricardo, ungido pela bênção materna.
Entretanto Luisinha voltava de todos os lados a carta volumosa, em cujo sobrescrito reconhecera admirada a letra de Fábio, o qual raras vezes escrevia e sempre de afogadilho, por desencargo de consciência.
- E esta é de Fábio? perguntou D. Benvinda.
- Não sei, respondeu Luisinha vermelha como lacre. Creio que é.
- Basta ver a letra, disse Bela.
- Desta vez desforrou-se! observou D. Benvinda contando as laudas da carta que tinha aberto. Toma, Luisinha; vamos ver o palavreado do rapaz. Já estou-me rindo!
- Leia você, Bela, murmurou Luisinha com as faces a arderem.
Era o costume. As duas noivas trocavam a vez nessa leitura.
A carta de Fábio era uma garrulice de estróina, mas não destituída de chiste e boas lembranças.
Suprimidos os nomes próprios, e metida em meia dúzia de colunas, aquela prosa caseira e do cote, podia bem gozar das honras do folhetim, e não teria que invejar aos mais asseados e domingueiros que aí aparecem.
Ao escrever essa carta passava o noivo de Luisinha por um desses momentos de plenitude moral, em que o espírito, como o coração, transbordam, e carecem de vazar a afluência de vida. Durante seis meses fartara-se de prazeres, divertira-se a não poder mais, gozara do mundo, era amado por uma mulher bonita e do grande tom. Estava cheio. Retido em casa à espera de uma resposta que devia trazer-lhe dinheiro, o moço lembrou-se, para disfarçar a impaciência, de escrever à sua futura sogra, e começou neste belo teor:
“Minha futura mãe e respeitável senhora.
Há tempos recebi uma carta sua em que me perguntava como ia na advocacia. Deixei passar alguns meses, antes de responder, para dar-lhe uma informação mais segura.
Agora posso dizer-lhe tudo que há a tal respeito e não é muito. O nosso Ricardo está com um escritório já bastante acreditado; tem clientes magníficos; e vai ganhando sofrivelmente. Eu só apareço lá, de longe em longe, para não espantar a caça; mas vou-lhe mandando as causas que posso. Sou um jornal vivo; mas jornal de sala, que é mais aristocrático, e mais barato.”
Neste gosto continuava a carta, que Bela ia lendo no meio das risadas de D. Benvinda e dos muxoxos de Luisinha. Chegou, porém, um ponto, em que redobrara a atenção das três senhoras:
“A Bela deve estar orgulhosa do noivo que tem. Se ela soubesse até que ponto Ricardo a ama!... Ele, estou certo que nada lhe dirá; mas eu é que não sou caixeta de segredos; e este me está fazendo cócegas. Aí vai, no ouvido, de cochicho, que não o ouça uma certa sonsinha, cujo pecado é a curiosidade.”
- Isto é com Luisinha! Disse D. Benvinda.
- É o que ele sabe me dizer.
Imagine-se a curiosidade com que foi ouvido o trecho seguinte, que leu Bela com a voz palpitante de emoção:
“Há aqui na corte uma moça, que é a rainha da moda; chama-se Guida; é filha de um homem que não sabe quanto possui; tem dezenove anos e muito espírito; a respeito de beleza e elegância, não se fala; é o tipo: ninguém a excede. Imagine quantos sujeitinhos andam-lhe arrastando a asa, apaixonados ao mesmo tempo pelos olhos pretos e os milhões amarelos dessa peregrina formosura.
Todo o alto coturno comercial, político, literário, inscreveu-se neste concurso; e cada um espera que lhe toque o anel. Mas ela não faz caso de nenhum destes pretendentes; e o seu fraco é por um certo advogado paulista, que nem dá fé das provocações, tão voltado anda para essas bandas da ínclita Paulicéia, onde lhe ficaram os olhos e o coração. Bastava-lhe querer para em pouco tempo estar senhor de uma riqueza colossal e marido da mais bonita moça do
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.