Por José de Alencar (1875)
Da outra banda um maracujazeiro dessa espécie delicada que alí chamam suspiro, prendendo-se aos galhos das árvores, formava entre lindas grinaldas de flores, um mimoso colar de seus lindos frutos dourados e fragrantes.
— Que bonitos maracujás! exclamou D. Flor. Quem me quisesse bem, não me deixava aguar com a vista deles.
— Não sou eu, disse Jaime.
— E você, Arnaldo?
— Mas êle morre! exclamou Alina.
— Ora, que mêdos!
Arnaldo já não estava alí; tinha-se metido no mato para tirar a roupa, amarrando a camisa à cintura como uma tanga, e acabava de arrojar-se à corrente. Êle já conhecia êsse rio, e tinha lutado com êle, quando mais criança.
O menino nadava com pausa, poupando suas fôrças e investigando com olhar rápido a veia do rio. Se algum madeiro enorme, arrancado pela cheia, vinha remoinhando pela água abaixo, êle mergulhava para escapar ao embate que o esmagaria. A travessia foi longa; e durante ela Flor e Alina ajoelhadas e de mãos postas rezavam pela salvação do camarada.
Quando Arnaldo alcançou terra e colheu os maracujás, que enrolou ao pescoço, elas sossegaram um pouco; mas preparando-se o rapazinho para voltar, recomeçaram os gritos; tanto uma, como a outra, suplicava-lhe que esperasse até passar a maior correnteza.
Arnaldo não lhes deu ouvidos e tornou afoitamente pelo mesmo caminho. Ao receber as
frutas que êle trazia-lhe, Flor tinha o rosto perlado de lágrimas, e sorria-se da alegria de ver salvo o camarada. Dos maracujás ninguém comeu; ela os guardou como jóias até que secaram de todo.
Nessa noite Flor pediu à mãe um cordão de ouro para o pescoço de Nossa Senhora, a quem o havia prometido.
O cumprimento dessa promessa deu causa a um novo e singular capricho da menina. Reparou ela que a Virgem da capela pisava a cabeça de um dragão, em cuja figura a tradição católica simbolizava o inimigo. Aquela circunstância ficou-lhe gravada, trabalhou-lhe no espírito e afinal deu de si. Um dia Flor lembrou-se de pisar a cabeça de uma cobra.
Os outros riram-se; mas Arnaldo achou aquilo muito natural.
No outro dia, quando saíam a passeio, o filho da Justa levou o rancho a um oitizeiro, onde mostrou-lhes a curiosidade que alí tinha guardada. Era uma cascavel amarrada pelo pescoço ao pé da árvore, e furiosa por escapar-se.
Jaime avistando a cobra quis matá-la, pelo que Arnaldo ia brigando com êle. Alina deitou a correr e Flor, a-pesar-de corajosa, ficou um tanto passada.
— Não tenha mêdo; arranquei-lhe todos os dentes.
Dizendo o que, Arnaldo agarrou a serpente pelo pescoço, abriu-lhe a bôca ensanguentada, e meteu nesta os dedos. Animada com isso, D. Flor aproximou-se, e segurando Arnaldo a cauda da cascavel para que não se enrolasse na perna da menina, satisfez esta o seu capricho, ecalcou com o tacão de seu lindo borzeguim a cabeça do monstro.
Arnaldo cuidou nesse momento que via a Nossa Senhora da capela, porém ainda mais bonita do que estava na imagem.
Se o vaqueirinho tinha por devoção fazer todas as vontades de Flor, com risco de sua vida e até de seu pundonor, pelo castigo a que muitas vezes expunha-se, em troca não consentia que ninguém o privasse dêsse contentamento.
Foi essa a causa das brigas que teve com Jaime. Tudo suportava êle do outro com paciência; a convicção que tinha de sua vantagem, o tornava calmo e condescendente. Quando, porém, tratava-se de Flor, não havia ninguém mais teimoso e irritadiço.
Eis a prova.
Flor desejou uns ovos de anum que são, como todos sabem, muito lindos pelo azul celeste da côr, e muito cobiçados pelas crianças. Nessa tarde a menina estava amuada com Arnaldo; e talvez mesmo para fazer-lhe pirraça pediu a Jai,e que fosse tirar um ninho feito em um tabocal. Jaime apressou-se em satisfazer o pedido da prima:
— Não vai, disse Arnaldo.
— Por quê? perguntou Jaime.
— Porque eu não quero.
— Ora!
— Há de ir! disse Flor.
— Eu lhe mostrarei.
— Não vá, Jaime! acudiu Alina suplicando e já com voz chorosa.
— Eu lá faço caso dêste bezerro bravo! exclamou Jaime com arrogância.
Arnaldo se postara diante da touceira de taquaras, para impedir o outro de passar. Jaime investiu por três vezes e de todas o vaqueirinho agarrou-o pela cintura e arremessou-o longe no chão.
Ainda quis voltar ao ataque; mas Flor o reteve. A menina estava muito irritada contra o seu colaço.
— Deixe, Jaime; chegando em casa eu mandarei tirar os ovos do ninhopelo Moirão. Quero ver, se isto pode com êle.
O isto foi pronunciado com um soberano desdém do lábio mimoso, que distendeu-se para indicar o filho da Justa.
— Êste ninho, se o quiser, há de pedir-me a mim, disse Arnaldo.
— Não peço.
— Pois então fica sem êle.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.