Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Em uma das tardes seguintes veio o velho guarda-portão dar-me a sua hora de música. Cantou um romance; esse romance era a história do meu sonho... a história do botão de rosa. Quem escreveu estes versos? perguntei eu. Foi o sr. Cândido; respondeu o velho Rodrigues.
Cheguei a crer que um gênio invisível velava em prol desse terno sentimento que nascia...
Fomos ao Passeio Público. Passeávamos juntos e sós eu e ele. Estávamos ambos tão perturbados!... éramos como dois criminosos; ouvi que alguém dizia – são dois namorados: – quase que morri de vergonha.
Oh! não é possível encobrir mais... não é possível..... a verdade deve-se dizer.
A flor que existia em botão dentro de minha alma abriu-se ao terno sopro desse mancebo; eu o amo!
Ainda não lhe disse, não serei capaz de dizer-lhe que o amo; já porém jurei a mim mesma que hei de amá-lo toda a minha vida.
Oh! sim! eu confesso... eu o amo.
Abençoem lá da eternidade meus pais o amor destes dois corações, que a primeira vez que se encontraram nesta vida foi de joelhos ao pé de seu túmulo.
Abençoem!...
Proteja o Senhor Deus estes dois corações que, antes de se acharem unidos pelos laços de um amor puro e santo, já se haviam identificado em oração, e caído juntos aos pés do Onipotente ligados pela mesma fé, pela mesma esperança e pelo mesmo pensamento.
Oh! sim! proteja.
Mas por que motivo ele, a quem eu amo, ele que me ama, foge de meu lado?... por que me não fala?... por que continua a mostrar-se tão triste como dantes?...
Eu devo então ser bem infeliz, pois que ele não pode mais ignorar que eu o amo, e todavia sua tristeza é sempre a mesma, sempre incurável.
E no entanto esse outro que me desagrada tanto quanto ele me é grato, esse outro impertinente e ousado não me deixa um instante, e ousa falar-me de amor mesmo diante daquele que amo.
Que diferença entre ambos!
Um é a modéstia, que receosa se afasta e se esconde, e que por isso mesmo é mil vezes mais bela.
O outro é a presunção que se ostenta, que se impõe e que depois de aborrecernos muito, retira-se pensando que nos deixa em êxtase.
Um é a palavra da virtude, que soa unicamente para louvar o mérito; é a gravidade do homem nobre, a pureza das almas cândidas.
O outro é a loquacidade do vício, não sabendo falar senão a linguagem venenosa do sarcasmo; lançando a calúnia, a sátira e o epigrama no meio da conversação mais séria e delicada. E quando não fala, o aspecto de um bufo ou de um malvado com seu rir constante, rir maledicente... rir venenos... ou rir estúpido.
Um crê na eternidade e em Deus, e crê na honra dos homens; o outro zomba dos mistérios e não acredita na honra de ninguém. Um é o néctar da virtude... o outro é a peçonha da víbora!...
Que diferença entre ambos!...
X
Já lá vai a noite de meus anos: contraditória, inconseqüente, como tudo mais que hoje comigo se passa, ela encheu a minha alma de prazeres e de pesares.
Pela primeira vez ele tinha de cantar no “Céu cor-de-rosa”. Chegou a hora de seu canto... ele veio melancólico e gracioso e sentou-se defronte de mim.
Trouxeram-lhe uma harpa.
Aquele mancebo pálido e triste, com cabelos tão negros e mãos tão brancas, causou-me uma impressão que eu não posso bem definir; julguei estar vendo um desses quadros amorosos dos tempos romanescos da Idade Média.
Sua voz soou... que voz! seu canto saía-lhe da alma; era um canto de amor.
Seus olhos embebidos no meu rosto me estiveram repetindo o mesmo que no apaixonado canto dizia; eu era tão feliz!...
Estava orgulhosa do amor desse homem!
Estava suspensa... – não me achava na terra – aquele canto me erguia em suas asas harmônicas, levando-me para a região fantástica, onde mora a imaginação do bardo que cantava.
Terminou o canto... mas eu fiquei ouvindo sempre aquelas doces harmonias, como se um anjo mas estivesse repetindo aos ouvidos; era talvez o anjo de amor que cantava, e o coração amante que ouvia.
Depois ele saiu da sala; procurei-o todo o resto da noite com os olhos, com o coração e com o pensamento: não apareceu.
Por que se retirou ele?... eu tremo.
Oh! o meu amor é tão novo, tão inocente, tão anjo como uma criancinha recém-nascida e uma flor que acaba de desabotoar-se.
Ah! pobre mãe! como é fácil, apesar de tuas lágrimas, ver morrer ali no berço
a criancinha de tua alma; ah! triste arbusto!... basta um instante de tempestade para que a tua flor caia por terra.
E o meu amor é como a criancinha, ou como a flor, eu tremo.
XI
Eu sou como a pomba que geme solitária; eu o sou... é bem verdade!...
Desde a noite de meus anos que nunca mais tornei a vê-lo; não será isso uma crueldade de sua parte?...
Que lhe fiz eu?... amá-lo?... só se foi esse o meu crime; mas ah! não merecia tão forte castigo.
Tenho chorado muito... já se me acabaram as lágrimas; agora escrevo, e agora compreendo que muitas vezes escrever é chorar com o coração.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.