Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Venâncio abriu a boca para soltar um grito de admiração; mas, como arregalasse os olhos e visse uma das abas de sua casaca nas mãos de Tomásia, exclamou dolorosamente:
— A melhor aba da minha casaca nova!...
E, enquanto Tomásia pálida, trêmula e fora de si, queria, procurava e não achava palavras assaz fortes para exprimir o furor de que se sentia acendida, Venâncio em piedosa contemplação diante da aba de sua casaca, tinha pronunciado como automaticamente, três vezes:
— A melhor aba da minha casaca nova!...
— Ó miserável!... ó tolo!... ó vil!... disse tremendo de raiva Tomásia.
— Serei tudo quanto a senhora quiser, respondeu Venâncio afastando-se prudentemente; mas juro que não a entendo, e ainda que a entendesse, não sei que culpa teve a minha casaca nova...
Tomásia não o deixou concluir: fazendo um rolo da aba da casaca, atirou-o contra o marido; e acertou-lhe em cheio sobre o nariz.
Já dissemos uma vez que Venâncio amava o seu nariz sobre todas as coisas.
— A senhora não se pode nunca enraivecer, que não implique com o meu nariz!... exclamou ele.
— Miserável! miserável! miserável!...
— Que o sou, sei-o eu há mais de vinte anos, senhora!
— Depois de velho, de torpe... depois de ser capaz de causar nojo a todo mundo, dar em namorador!...
— Eu?! bradou Venâncio, fazendo uma terrível careta.
— Tentaria, sem dúvida envenenar-me a ver se casava com ela.
— Casar-me?... oh, Sr.ª Tomásia, falando sério, se eu tivesse a felicidade de ficar viúvo, não me casava nem com uma santa!...
— Pois hei de viver!... hei de viver!... e hei de viver!...
— Obrigado... obrigado... irei assim ganhando mais direitos ao reino do céu.
— Hei de persegui-lo!... maltratá-lo!... martirizá-lo!...
— Isso não me faz mossa... já estou habituado.
— Sou capaz de fugir-lhe de casa!...
— Minha senhora, a porta da rua é a serventia da casa; mas não creio que chegue a fazer tal.
— Por quê?... penso que preciso de sua pessoa?...
— Ao contrário: porque seria uma pessoa como a minha muita felicidade junta.
— O senhor come pelo meu dote!...
— Sim, senhora... sim, senhora... os seus dotes são extraordinários!...
— Sabe?... o senhor está hoje muito atrevido!...
— E a senhora não se lembra que ainda há pouco atirou com a aba da minha casaca sobre o meu nariz?...
— Um homem casado ofender assim sua mulher!...
— Ora, isto só pode ouvir um homem prudente como eu!... Sr.ª D. Tomásia, a senhora tem venetas, tem acessos de loucura?... que diabo lhe fiz eu?... diga, senão desta vez estouro!...
— Hipócrita!...
— Atacar-me na pessoa da minha casaca!... ofender-me no indivíduo do meu nariz!... e sem nenhum motivo plausível, sem nenhuma razão sensível, dar um golpe de estado em circunstâncias ordinárias!...
— Miserável!... e ainda quer encobrir?!...
— Encobrir o quê, senhora da minha alma?... ora, dá-se um inferno, como este em que vivo?...
— Pois aonde ia o senhor ainda agora?...
— Trabalhar para a eleição de Manuelzinho; não era isso da sua vontade?
— Todos eles têm sempre um pé por onde se desculpam! por que não confessa antes, senhor hipócrita, que ia ver a sua namorada?...
— Pois eu tenho namorada, mulher dos meus pecados?!
— Então tem ainda o atrevimento de negar que anda apaixonado pela filha de Hugo de Mendonça?...
— Misericórdia! que calúnia! que falsidade!...
— E há pouco por que o senhor a chamava agradável, interessante, linda, encantadora, e até anjo?!...
— E não foi a senhora quem deu-lhe primeiro todos esses nomes?... se eu dissesse o contrário disso, tínhamos trovoada por três dias!... caí na asneira de repetir o que ouvia, e eis o resultado! nesta casa sou preso por ter cão, e preso por não ter cão; mas vou apelar para outro meio: fale, minha senhora; que de hoje em diante ficarei mudo, como o Pão de Açúcar. — E hei de falar, gritar e bramir!...
— Hum.
— Anjo!... anjo!... anjo aquela lambisgóia!...
— Hum.
— Uma amarela sem graça!
— Hum.
— Entendeu?... não quero que se trate mais de eleições.
— Hum.
— Não quero mais amizade com aquela gentinha.
— Hum.
— Não quero que o senhor me ponha mais os pés da porta para fora.
— Hum.
— Pois que é um velho estúpido e namorador...
— Hum.
— Miserável!... torpe!... covarde!...
— Hum.
— Tão covarde, que ouve os insultos que lhe estou dirigindo, e não me diz palavra!...
— Hum.
— Digo-lhe que não me sai mais de casa! que hei de tê-lo preso num quarto escuro! que hei de pô-lo em penitência de pão e água!...
— Hum.
— Homem sem sangue!... fale!... senão desespero!...
— Hum.
— Oh, velho desgraçado!... desculpe-se, ou grite; mas fale!... ou ver-me-á fazer alguma asneira!
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.