Por Aluísio Azevedo (1897)
E esses olhos deram com os olhos que a fitavam do outro grupo, cintilaram mais forte, num relâmpago seguido de um grito, que a cortina do palanquim abafou logo.
Era de Eugênia.
Gabriel caiu sobre as almofadas do carro, a soluçar, enquanto os companheiros davam vivas ao cocheiro que chegava com o café.
Eugênia, depois que Gabriel se ausentou totalmente da casa dela, ia contando os dias pelos progressos da mágoa que a devorava. A melindrosa suscetibilidade do seu frágil organismo exigia, para o milagre da vida o milagre do amor.
Como toda a moça casta, sem o brilhante prestígio do ouro ou da beleza, fora sempre concentrada e retraída. Não dividia com outros os seus tímidos desgostos de donzela e as suas humildes decepções de menina pobre. Um como íntimo recato de orgulhosa fraqueza, associado ao pudor da sua imaculada inferioridade e ao decoro da sua virtude inútil, a faziam reprimir os soluços diante da família e das amigas, recalcando em segredo as lágrimas vencidas, que lhe subiam do coração e para o coração voltavam, sem que ninguém as visse ou enxugasse.
Nunca lhe ouviram a sombra de uma queixa. Todavia, na sua angelical credulidade, chegara a crer houvesse, no círculo ginástico da vida, alguma cousa entre os homens que não fosse egoísmo só e vaidade; chegou, pobre inocente! a supor que o fato de ser meiga, dócil, virtuosa e pura, lhe valeria o amor do moço pelo seu coração eleito; e, uma vez desiludida, a sua feminilidade, em lugar de expandir em flor o aroma dos vinte anos, fechouse em botão para nunca mais rescender, vencida, como foram vencidas as suas lágrimas.
E também nunca mais lhe voltavam às faces as rosas, que a natureza aí lhe tinha posto, para atrair as asas dos beijos amorosos; nem aos olhos tampouco lhe voltaram as alegrias, com que dantes esperavam sorrindo o "Amote" sagrado.
Enfermou de todo. Afinal, a sua existência era já um caminhar seguro para a morte. O pai estalava de desespero, sentindo fugirlhe irremissivelmente aquela vida estremecida, pouco a pouco, como um perfume que se evapora. Ela sorria, resignada. Estava cada vez mais abati da, mais fraca; parecia alimentarse só com a muda preocupação da sua mágoa sem consolo. O pai levoua a princípio para Santa Teresa, depois para o caminho da Tijuca, o médico, porém, à proporção que a moléstia subia, ordenou que fossem também subindo sempre, em busca da ares mais puros.
E lá iam eles, como um bando de foragidos, a fugir da morte. Só a doente parecia conformada com a situação, os mais se maldiziam e choravam. Ela sorria sempre, sempre triste, com o rosto levemente inclinado sobre o ombro.
Já quase se não distinguiam as suas falas, e só pelos olhos verdadeiramente se exprimia, que esses, como a estrelas, cada vez mais se acendiam à proporção que as trevas se aproximavam.
Às vezes, nem que pretendesse desabituarse de viver, fugia para um profundo cismar, de que só a custo desmergulhava estremunhada. Pedia nesses momentos que lhe abrissem a janela do quarto, e o seu olhar voava logo para o azul, como mensageiro da sua alma, que também não tardaria, com o mesmo destino, a desferir o vôo.
— Ao amor! Ao prazer! Hurra! blasfemou o eco à fralda da serra da Tijuca.
E o carro dos libertinos sumiuse na primeira dobra da estrada.
O campo recaiu na sua concentração
A cadeirinha continuava no ponto em que a depuseram. O sol, ainda brando, derramavase como uma bênção de amor, e nuvens de tênue fumo brancacento desfiavamse no espaço, subindo dos vales como de um incensório religioso. O céu tinha uma consoladora transparência em que se lhe via a alma, pássaros cantavam em torno da tranqüila moribunda, ouviase o marulhar choroso das cascatas, a súplica dos ventos, a prece matinal dos ninhos. Toda a natureza parecia em oração.
A moça pediu que lhe abrissem a porta do palanquim e, reclinada sobre o colo do pai, fitou o espaço com o seu olhar de turquesa úmida. O azul do céu compreendeu o azul daqueles olhos celestiais. Houve entre eles um idílio mudo e supremo.
Ninguém em torno dava uma palavra, só se ouviam os murmúrios da mata, acordando ao sol, e os esgarçados ecos da música dos Meninos Desvalidos, que para além da serra tocava alvorada. A moça continuou a olhar para o azul, como se se deixasse arrebatar lentamente pelos olhos. Encarou longo e longo tempo o espaço, sem pestanejar. Depois duas lágrimas lhe apontaram nas pálpebras imóveis e foram descendo silenciosas pela palidez das faces.
Um sorriso que já não era da terra pairou um instante à superfície dos seus lábios puros.
Estava morta.
XXXIV
O SABOR DA EXISTÊNCIA
Terçafeira de carnaval, Gabriel acabava de acordar no seu quarto do "Provençaux" e permanecia na cama a pensar em Eugênia, quando lhe entregaram uma carta tarjada de negro que o convidava para o enterro dela.
Ergueuse soluçando, sem querer acreditar no que vinha escrito.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.