Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
O novo prelado que o rei nomeou foi o padre dr. Lourenço de Mendonça, que, a 9 de setembro de 1632, começou a exercer as suas funções e, daí a quatro dias, experimentou logo os efeitos de um ódio inexplicável que se demonstrou em libelos infamatórios, em uma tentativa de assassinato por meio de um barril de pólvora que fez arder parte da casa do prelado num ousado plano de o prenderem e abandonarem fora da barra em um navio desaparelhado, ardil criminoso de que conseguiu escapar a vítima, e na acusação enfim de um fato escandaloso, pelo qual teve o padre Mendonça de responder ao Santo Ofício, merecendo ser por este absolvido.
Ao padre Lourenço de Mendonça foram-se sucedendo: O padre Pedro Homem Albernaz, outra vez interinamente, a quem se imputou grande parte na desordem dos jesuítas com a câmara e que, em verdade, tomou com decisão o partido deles, excomungando a todos os que tivessem concorrido para a expulsão desses religiosos.
O padre dr. Antônio Marim Loureiro, que escapou a uma tentativa de assassinato em São Paulo, e vendo-se exposto a horríveis perseguições no Rio de Janeiro, partiu para a capitania do Espírito Santo, onde (escrevem Pizarro e outros, não sei com que fundamento) lhe foi propinado um veneno que o privou da razão.
E além de dois que serviram interinamente: O padre Dr. Manuel de Sousa e Almada, nomeado a 12 de dezembro de 1658. Foi por mais de dez anos hostilizado e atacado como os seus antecessores, chegando a ousadia dos inimigos a assestarem uma peça de artilharia carregada com bala, na noite de 5 ou 6 de março de 1668, contra a casa de sua residência, e a lançarem-lhe fogo, conseguindo felizmente o prelado escapar a tão indigno atentado e inacreditavelmente os perpetradores deste à devassa que então se tirou e de que teve de pagar as custas a própria vítima que, cansada de tanto sofrer, determinou retirar-se para Portugal.
O padre Dr. Francisco da Silveira Dias, natural do Rio de Janeiro, provou a fortuna adversa dos outros prelados e provocou o ressentimento e a inimizade do povo, deixando-se dominar e iludir pelos jesuítas a ponto de, a instâncias e persuasões do reitor dos padres da companhia, fazer publicar uma tremenda excomunhão contra os que cortavam mangue nas marinhas fronteiras às terras desses padres.
E com o nome do padre Silveira Dias fecha-se a lista dos simples prelados do Rio de Janeiro, que subiu à categoria de bispado, recebendo no mês de dezembro de 1681 a jurisdição prelatícia o padre Sebastião Barreto de Brito, vigário da paróquia da Candelária, a quem o bispo d. José de Barros de Alarcão nomeara governador do bispado.
Essas desordens vergonhosas, essas tentativas de crimes horrorosos, esses crimes inauditos que se realizaram, esses fatos escandalosos, enfim, que se repetiram impunemente durante cem anos, patenteiam bem claramente a desmoralização da cidade do Rio de Janeiro.
Eu disse que ia conversar sobre a história dos padres no Brasil, e Deus me livre de atribuir exclusivamente aos padres do Rio de Janeiro, que naqueles cem anos viveram, as culpas de tantos e tão abomináveis atentados.
A culpa deve recair mais ou menos sobre todos. Deve recair sobre as autoridades civis, que eram ou deviam ser quase sempre coniventes com os criminosos, pois que estes logravam sempre escapar ao castigo e se exaltavam com a impunidade. Também deve recair sobre os prelados, que quase todos ultrapassavam os limites de suas atribuições, invadindo com abuso e arrogância a esfera da autoridade civil. Deve-se atribuir aos jesuítas, que lavravam sempre a mina em benefício próprio, e não hesitavam em comprometer os prelados e expô-los à animadversão pública, desde que isso podia aproveitar aos seus interesses. Deve-se atribuir também, e muito, aos clérigos seculares, que, uns por ambição de cargos mais ou menos importantes e outros por indisciplina e desenfreamento, fomentavam a desordem e atiçavam a anarquia.
Em uma palavra, a desmoralização era geral. Clero, nobreza e povo estavam todos pervertidos.
Como, porém, e por que bastou a presença dos bispos para fazer serenar toda essa tempestade que incessante se desfechava sobre as cabeças dos simples prelados?
Esta pergunta é muito grave e exige uma resposta tão longa como bem fundamentada, resposta que agora não posso ou não quero dar, mas que provavelmente darei, quando chegar nos meus passeios ao palácio da Conceição.
Todavia, apesar dessa depravação dos costumes, os padres, que também se achavam profundamente afetados da moléstia geral no Rio de Janeiro do século XVII, começavam pelo menos a mostrar-se devotos; e se por um lado se aviltavam com a mais repreensível indisciplina, por outro se abraçavam com os santos do Céu, e especialmente com o príncipe dos apóstolos.
E neste momento chegamos muito a propósito à igreja de S.
José, que no tempo de que vos falo era apenas uma simples ermida.
Dizia eu, pois, que os padres do Rio de Janeiro não se
descuidavam do culto e da devoção, e tanto foi assim que no princípio do século
XVII reuniram-se eles de acordo comum e resolveram fundar uma irmandade dos
clérigos de S. Pedro.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.