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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

D. Flor reviu em sua imaginação aquele rancho de quatro crianças, os folguedos em que se entretinha, as zangas que às vezes o perturbava, para logo depois se desfazerem em novas festas e travessuras. 

Então os quadros mais salientes dêsse viver jovial se desenharam em sua memória como painéis ainda vivos. 

Uma parda, que fôra ama de D. Genoveva, era a incumbida de acompanhar Flor e Alina quando estas saíam a passeio pelos arredores da fazenda. Já quebrada pela idade e também pelos achaques, a velha Filipa cansava logo e deixava-se ficar sentada ao pé de um algodoeiro, cujos capulhos ia cardando para entretaer o tempo. 

Se D. Flor queria continuar, a velha que não sabia resistir ao rôgo da feiticeira menina, dava o seu consentimento: 

— Está bom: podem ir meus netinhos,; mas, olhem lá, bem sossegados; e há de ser por aquí pertinho. Cuidado com o capeta do Arnáo, que aquilo não é gente. Cruzes!… O Jaime, êste é bom menino; sai ao pai, coitadinho, o defunto sr. Lourenço Falcão, rapaz do meu tempo, que ainda me conheceu moça, quando eu era uma rapariga sacudida, que hoje não presto mais; estou uma velha coroca. Deus tenha sua alma, que foi um homem bom, mesmo pela palavra; só tinha que não podia ver cabeção de cacundê que não ficasse logo como pipoca na frigideira! Eu que o diga! Ai! ai! tempo! 

Os meninos não ouviam senão as primeiras frases desta ladainha, o que não impedia a velha de a continuar até o fim; e era tal às vezes, que durava até à volta do rancho. Da recomendação faziam o mesmo caso; e seguiam Arnaldo que era o seu guia constante, aonde êste os queria levar. 

Uma tarde chegaram a um aberto, onde crescia uma touceira de catolezeiros, ainda novos. Um boi mal encarado rodeava as palmeiras, e empinando-se conseguia alcançar os cachos com a bôca e colhêr os frutos, de que o gado é mui guloso. 

Flor, vendo as pinhas de coquinhos amarelos, cobiçou-os, e pediu os catolés. Arnaldo encaminhou-se à touceira. O boi sentindo-lhe os passos lançou-lhe de esguelha um olhar de ameaça, que não o atemorizou, mas tornou-o cauteloso. Dando volta e aproximando-se sutilmente, pôde o rapazinho apanhar uma porção de côcos, derrubados pelo animal. 

Alina achou-os deliciosos; a filha do capitão-mór rejeitou-os desdenhosamente. 

— Eu quero o cacho! disse ela terminantemente. 

— Pois vá querendo, respondeu-lhe Arnaldo resoluto. 

— Êle está com mêdo do boi! disse Jaime triunfante. 

— Arnaldo não tem mêdo de nada! acudiu Alina. 

Flor, porém, que desejava ardentemente o acho de catolés, empregou o meio que ela sabia infalível para render Arnaldo. Pousando-lhe a mãozinha mimosa no ombro, disse-lhe com meiguice de rôla: 

— Tire um cacho pra mim, sim, Arnaldo? Tire que eu lhe quero muito bem. 

— Pois então ponha-se no poleiro, que o boi é manhoso. 

Arnaldo levantou as duas meninas e deitou-as de sobrado nos ramos das árvores; o Jaime deixou-se ficar no chão, mas por segurança junto ao pé do pau. 

Quando o boi percebeu que Arnaldo ia direito aos catolezeiros, voltou-se raivoso; o rapazinho atirou um galho sêco ao animal, que investiu furioso. As meninas gritavam estremecendo aos urros medonhos; e Jaime já estava de palanque para ver correr aquele touro. 

Arnaldo esperou o boi a pé firme; seus companheiros, vendo o animal cair sôbre êle, julgaram-no esmagado. Mas o intrépido vaqueirinho segurou os chifres da fera e saltou-lhe no cachaço. 

Abalou-se o touro, e lá foi pelo campo aos corcovos, fazendo esforços desesperados para arrojar de si o rapazinho, que divertia-se com essa fúria vã. Afinal correu o boi para os catolezeiros e começou a esfregar o lombo no tronco das palmeiras, como um meio de arrancar o fardo das costas. 

Logrou-o, porém, o menino, que erguendfo-se em pé sôbre a alcatra, alcançou o cacho de catolés e cortou-o. Depois do que, saltando em terra, veio apresentar a Flor a sua conquista, tão gloriosa como a dos pomos de ouro das hespérides. 

Flor ainda estava pálida do susto que sofrera, e agradecendo a Arnaldo com a voz trêmula, distribuiu os côcos pelos companheiros. 

— E você, Flor? perguntou Arnaldo. 

— Eu não devo comê-los, por meu castigo. 

E lançando um olhar cheio de desejos ao cacho de côcos, afastou-se sem prová-los, apesar-das instâncias dos camaradas. 

Outra vez foi à margem do Sitiá. 

Era no meio do inverno; o rio com a cheia tinha uma torrente caudalosa e rolava com fragor medonho. O rancho aproximou-se receoso, parecendo-lhe que essa torrente empolada ia saltar de seu leito e arrebatá-lo. 

(continua...)

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