Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Os poetas são homens que sabem amar; os que não são poetas amam como todos, amam com esse amor comum que se vê todos os dias, que não tem nada de novo, que tem bem pouco de belo.

O amor dos poetas é de um fogo que se não acende na terra, é um fogo como o do sol.

Os poetas são irmãos do sol; eles são os astros que iluminam o mundo como o sol ilumina o espaço.

A luz que dardejam os poetas e o sol, vem da mesma fonte, é a mesma luz santa e pura; veio-lhes do céu saída dos olhos do Senhor Deus.

Eu amo os poetas.

VII

Ele se chama Cândido.

Tem continuado a visitar-nos; freqüenta os serões do “Céu cor-de-rosa”; meu avô o estima e minha tia também.

Eu tenho por ele um sentimento tão doce... tão sossegado, que me parece que assim é que se há de amar um irmão.

Quase nunca se dirige a mim... não conversa comigo... parece que se esconde, que foge de todos os olhos; por quê?...

Parece infeliz; gosto ainda mais dele por isso; a melancolia pode tanto na minha alma!...

Um homem melancólico vale mil vezes mais do que aquele que vive rindo-se constantemente.

Eu tenho pena dessa gente que anda rindo-se de contínuo.

Esses homens que vemos sempre a rir, a zombar, a dizer sarcasmos, a ridicularizar tudo, são como insultos que a natureza faz à terra.

A tristeza daquele mancebo tem alguma coisa de solene; ele está triste porque sofre.

Ás vezes de relance me olha... o seu olhar é então bem terno, e seus olhos quase sempre amortecidos têm nessas ocasiões um fogo...

Desde que pela primeira vez o apanhei olhando-me assim, eu senti alguma

coisa de novo em mim... eu corei; por quê?... não será puerilidade corar por isso?...

VIII

Preciso conversar com o meu coração; dentro de mim se estão passando muitas coisas que ainda não compreendo; é uma série de contradições... um desejar sem querer, o que eu estou experimentando.

Como foi que eu comecei a amar este moço, que se chama Cândido, não é por certo um mistério. Vi-o de joelhos junto do túmulo de meus pais, e amei-o por gratidão; amei-o como se eu fora irmã dele.

Disse a todos que o amava assim; riam-se de me ouvir, e eu não corava.

Nos primeiros dias, quando ele me olhava, seu olhar passava por sobre meu coração, tão suave, tão doce, como o sopro do favônio sabre a rosa que acaba de desabrochar.

Depois... as sensações foram outras. Seu olhar não foi mais para o meu coração como o favônio para a rosa, é como a aurora para o céu; porque o céu se avermelha quando o dia amanhece, e meu rosto se enche do rubor do pejo quando ele me olha.

Por quê?...

Agora, quando ele está ausente, eu me aflijo, desejo ardentemente vê-lo chegar; quando ele se anuncia, meu coração palpita; quando ele entra na sala, minhas faces coram; quando ele se chega a mim, meus olhos se abaixam; quando ele me cumprimenta, eu não posso responder-lhe.

Por quê?...

Eu gosto de ouvir falar dele; mas não pronuncio nunca o seu nome. Sua imagem aparece nos pensamentos todos de minhas vigílias, e nas belas imaginações de meus sonhos; parece que a imagem desse mancebo é dona de minha alma.

Por quê?...

Oh! eu o estimo, e estando a seu lado, tremo; acho-o bonito, e tenho receio de olhar para ele; gosto de ouvi-lo falar, e nunca me animo a conversar com ele.

Por quê?...

Ah! por quê? por que, meu pobre coração? por que é que eu sinto que já não amo esse mancebo como se fora sua irmã? como é então que o amo agora?...

IX

Oh! que revolução se operou em toda minha vida, em todo meu ser!

Eu já sei que se ama a alguém que não é nosso pai, nem nosso irmão, e que não é nosso amigo. Eu sei enfim o que é amor. Quem mo ensinou?... foi o coração, foi a natureza, foi Deus.

O amor é uma flor que existe em botão na alma da virgem; o homem a quem se tem de amar é o sol que faz desabrochar essa flor.

E uma flor que Deus plantou dentro de nós, porque, quando a virgem nasce, já consigo a tem no coração.

Oh! eu já despertei a um belo grito; gritaram-me – ele te ama!... – pois eu deveria tê-lo adivinhado.

Sim! oh! sim!... eu devo crer que me ama. Por que também ele cora quando encontra meus olhos? por que também treme quando me fala?

Eu revolvo na minha alma quanto se tem passado entre ele e mim, como a mão de uma menina revolve buliçosa uma cesta cheia de flores.

Recordemos...

Uma noite... que noite! dançamos juntos... fui o seu par... nossas mãos tremeram... quisemos falar e não dissemos nada... ah! parece que fazendo assim é que nós dissemos tudo!...

Depois fui com duas amigas para meu quarto; contei-lhes a história do sonho do – botão de rosa: – ninguém me devia ouvir senão elas.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...8687888990...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →