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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Mana Rosa... olhe que você me insulta!... faça de conta que D. Honorina é já minha mulher... que somos ambos solitários...

— É uma insolente!...

— Mana Rosa, contenha-se, senão digo-lhe também das últimas...

— Teve a audácia de perseguir em um só dia cinco homens ao mesmo tempo!...

— Isso é uma calúnia!... não era capaz de tal!... todas vocês têm raiva dela por ser mais bonita, mais engraçada, mais...

— Manduca, você é um grandíssimo tolo, ouviu!...

— E você tem uma lingüinha de cobra!...

— Sim, por dizer verdades de uma mulher, que se abaixou ao ponto de mostrar-se apaixonada de um original como o Brás-mimoso.

— É falso!... é uma mentira daquele ventas de mono!...

— Que se fingiu namorada de Otávio...

— Ora... ora... ora... isto não se pode sofrer quando ela parecia até não gostar de semelhante impostor!

— Que se mostrava sensível às tontices que você lhe dizia...

— Isto só pelo diabo! mana Rosa, não tenho vergonha de dizer que levei tábua redonda em todas as vezes que a ela me dirigi.

— Que namorou a meu primo Félix...

— Mana Rosa, olhe que se vai por aí, eu rasgo-lhe o capote em cinco minutos!

— Que nem mesmo perdoou a meu pai com ser velho; que deu-lhe cotoveladas, que apertou-lhe a mão... que...

— Ai!... já sei donde vem esta embrulhada!... você, senhora mana Rosa, era capaz de levantar três dúzias de aleives a D. Honorina pela inveja que dela tem; mas no que acaba de dizer conhece-se o dedo do gigante!... por isso o tal brejeiro escamou-se daqui apenas me viu chegar; porém, deixe-o estar, que há de pagá-lo com língua de palmo: quer saber de uma coisa?...

— O que é? diga.

— A primeira vez que encontrar o Sr. Brás-mimoso, corto-lhe as orelhas.

— Não foi ele...

— Foi!...

— Juro que não foi ele.

— Quer fosse, quer não; tenho sede naquele atrevidaço... ainda mais agora, que me asseguram tentar também o tal sujeito a deputação provincial!

— Manduca, eu hei de dizer a minha mãe.

— Pode fazê-lo... ou é melhor que vá eu mesmo assegurar-lhe as minhas últimas determinações.

Isto dizendo, Manduca atirou-se para a sala, sendo imediatamente seguido por sua mana Rosa.

Como fizemos notar, Venâncio não tinha reparado no carão assustador de Tomásia, e, por isso, sentando-se junto dela, começava por dar conta de todos os meios empregados a fim de ganhar votação para o jovem candidato; depois a sua má sina o foi empurrando para a fogueira em que tinha de arder, de modo que Venâncio concluiu, dizendo:

— Agora só me falta ir falar ao Sr. Hugo de Mendonça; tem relações com muita gente dos colégios da serra... e pode alcançar-nos boa votação: oh! há de dar-nos uma carga cerrada...

— Sim... sim... disse Tomásia com terrível sorriso; uma carga cerrada... é o que se precisa!

— Tu, minha Tomásia, podes bem dispor a nossa boa D. Honorina em prol do querido

Manuelzinho... ela te estima tanto!...

— E a ti não menos; não é assim?... D. Honorina é tão agradável!...

— É verdade!... tão agradável!...

— Interessante!... disse Tomásia levantando a voz.

— Interessante!... repetiu Venâncio procurando imitar o fogo com que falava sua mulher.

— Bonita!... linda!...

— Bonita!... linda!... exclamou Venâncio.

— Chega mesmo a ser encantadora!...

— Mesmo a ser encantadora!... disse o velho com entusiasmo.

— É um anjo!...

— Um anjo do céu, Tomásia!...

— Eu a amo mesmo como se fosse minha filha!...

— E eu, Tomásia!... e eu!...

— E então tu a amas também muito?...

— Oh!... pouco mais ou menos como tu mesma.

— E por que te não diriges antes a ela, do que a seu pai, para falares sobre a eleição?...

— Eu... porque... não me tinha lembrado...

— D. Honorina pode empenhar-se com o pai...

— É verdade!... que juízo que tu tens, Tomásia!

— Por conseqüência...

— Achas que devo ir falar a D. Honorina?...

— Sem dúvida...

— E quando, Tomásia?...

— O mais cedo possível.

— Agora, por exemplo?...

— Sim; podes jantar com ela: não gostas da sua companhia?...

— Muito, Tomásia!...

— A gente não se lembra de mais nada no mundo; não é assim, Venâncio!

— Ora... pois se ela é tão feiticeira!...

— Então, Venâncio, vai... vai já...

— Pois sim... até logo, Tomásia.

Venâncio levantou-se, e, tomando o chapéu, ia cheio de prazer pelas boas maneiras com que o tratava sua formidável esposa; quando ao chegar à porta, sentiu-se agarrado pelas abas da casaca e sofreu tão terrível arrancada, que foi parar no meio da sala, fazendo a pirueta mais brilhante do mundo.

— Passa para ali, grandíssimo insolente!... bradou Tomásia.

(continua...)

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