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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

O Orador— Sr. presidente, rogo a V. Exa. que me mande traduzir o aparte do nobre deputado.

A risada foi geral e antes que o presidente pudesse chamar a atenção, a um sinal de Campelo, um cidadão das galerias gritou: ignorante! ignorante!

Presidente — Atenção; as galerias não se podemmanifestar.

Orador —... tenho que procurar no Almanck, para segurança de minha ação, qual é o mais antigo, qual tem mais medalhas...

BUOCOMPAGNI — Ma la impresa era árdua; e non poteva compiersi senza molte ingiustize

SAKENUSSEN — Si. Jeg holder af Dem.

Acabado de pronunciar o aparte que foi como os demais, ouvido pacientemente pelo orador, houve palmas nas galerias, a um sinal de Campelo.

Presidente — As galerias não se podem manifestar! Aviso os senhores deputados que quem está com a palavra é o nobre deputado Júlio Barroso.

Orador — Sr. presidente, tenho até agora ouvido com a máxima paciência os apartes poliglotas dos meus nobres colegas. Não sei onde estou, não sei se estou na torre de Babel, se isto...

WERNER — V. Exa.sape. Dies alle ist eine Scheisse.

Um Sr. Deputado — É isto mesmo.

Vários Deputados — Muito bem! Muito bem!

A um sinal de Campelo, um tanto diferente dos anteriores, as galerias prorromperam em entusiásticos vivas.

Presidente — Atenção. Quem está com a palavra é o nobre deputado Júlio Barroso. Orador —... se isto é mesmo o parlamento brasileiro, parlamento de um país onde se fala o português. Acho-me por assim dizer coagido a suspender as ligeiras considerações que vinha fazendo sobre o espírito de classe. Eu queria mostrar como esse espírito é uma sobrevivência nefasta, como ele já nos envergonhou a civilização. Vejo-me obrigado porém, a suspendê-las, porquanto não tenho mais imunidades parlamentares, não podendo falar livremente como fazem aqui os parentes das influências poderosas que recitam... Numa — V. Exa. deve positivar as suas acusações.

Orador — Não estou acusando. Estou simplesmente tratando de um modo geral no que toca ao proceder da mesa... Numa — Não admito essas insinuações.

Orador — V. Exa. quando ora não tem dessas perturbações prejudiciais à memória ou ao fim...

Numa — Peço a palavra para uma explicação pessoal.

Júlio Barroso continuou a sua oração embora cortado de apartes constantes após a qual foi dada a Numa a palavra para uma explicação pessoal. Toda a Câmara esperou que Numa fizesse um veemente discurso, como faziam crer as suas orações anteriores; mas, ao contrário disso, pronunciou breves palavras, disse que era honrado, que a sua adesão ao general Bentes tinha sido espontânea e sincera.

A impressão geral foi péssima. Os seus amigos, quando deixou de falar, receberam-no friamente, não lhe deram os cumprimentos de hábito e houve suspensão em todos os espíritos. É verdade que pretextara incomodo, mas não podia ser ele tão grave que o impedisse de defender-se cabalmente e a sua defesa estava em falar com calor, com veemência e paixão. Piterzoon, entre colegas, dissera mesmo:

— Vocês admiram-se! Não é coisa do outro mundo. O Numa lá de Roma acertava, quando consultava a Ninfa; com este dá-se a mesma coisa.

O genro de Cogominho deixou a Câmara apreensivo. Ele mesmo tinha provocado aquele incidente, ele mesmo tinha levantado a luva e fora ele mesmo, portanto, quem criara aquele fiasco. Julgou em começo poder pronunciar a sua defesa; não havia estudo a fazer, não havia argumento a responder, entretanto, o hábito que adquirira de discursar depois de estudo apurado, tinha-o traído no momento crítico.

Era preciso apagar aquela impressão; no dia seguinte, fosse como fosse, tinha que fazer um discursos sólido, cheio, capaz, por conseqüência, de levantar a sua reputação. Foi logo para casa. Mal entrou, procurou a mulher. Edgarda lia na sua biblioteca. Numa entrou nervoso e ansioso. Olhou um momento com tristeza as estantes cheias de livros. A mulher notou-lhe a fisionomia alterada, a sua angústia quase a nu.

— Que tens, Numa?



(continua...)

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