Por Aluísio Azevedo (1897)
A Rita Beijoca achavalhe tanta graça, que chegava a chorar à força de gargalhadas.
Gabriel, meio deitado sobre ela, divertiase em afagarlhe o queixo.
— Olha que me sufocas! observou a folgazã, tomando respiração com mais força. Não é assim tão levezinho que se possa levar ao colo! Põete direito!
Mas Gabriel, prostrado de fadiga, fazia ouvidos de mercador. A Beijoca resignouse a procurar por si posição menos incômoda.
Mendonça calarase afinal, e a viagem começava a tomar um caráter triste; agora só se ouvia de quando em quando a voz grossa do cocheiro, que arriscava a sua pilhéria para o carro.
Ia se tornando aquilo aborrecido.
— Champanha! gritou Juca, fazendo saltar a rolha de uma garrafa. Vem aí o dia! é preciso brindálo!
Encheramse as taças. A Rita, com o Gabriel ao colo, derramavalhe o vinho na boca como se desse de beber a um pássaro. Ele, todo derreado, sorvia o líquido, indiferentemente. Costa Mendonça, que se queixava de suores frios, vomitava nessa ocasião, amparado pelo cocheiro. A sujeita e o Juca fingiam beber. Parecia haver entre os dois qualquer tácito concerto.
— Ah! agora sou outro homem! exclamou Mendonça, erguendose, com o rosto sumamente lívido. Posso recomeçar... disse ele em tom sinistro.
E emborcou uma taça de vinho.
— Eu também sou filho de Deus! lembrou o cocheiro, vendo que lhe não ofereciam de beber.
Passaramlhe uma garrafa.
Mendonça havia criado novo ânimo, mas foi por pouco tempo; dentro de meia hora caiu prostrado sobre as almofadas. A rapariga então, ajudada pelo Juca, pousou Gabriel sobre ele, deixandoos que dormissem à vontade, e em seguida, voltouse para o outro e pegaramse a beijos.
Entraram no campo. De todos os lados surgiam as árvores banhadas pelos primeiros raios de sol; os pássaros principiavam a cantar, e a natureza parecia ir pouco a pouco despertando de um sono grato e consolador.
Juca e a rapariga não trocavam palavra. Devorador pela insônia, entorpecidos pelo álcool, pareciam cumprir ali um destino de condenados.
Rasgouse a aurora, inundando de luz os caminhos orvalhados pela noite.
— Gabriel! Mendonça! exclamou Juca, sacudindo os companheiros. Acordam! Aí está o dia!
Os dois apenas resmungaram.
— Agora o que sabia era um gole de café quente observou a Rita, vendo que o cocheiro abria uma nova garrafa.
— Pois descanse! Ali mais adiante teremos café, disse ele, apontando para uma casinha ao longe.
A rolha da garrafa saltou com estrondo.
Mendonça abriu os olhos.
— Acorda, homem! vamos brindar o sol!
Gabriel foi arrancado do sono à pura força. Distribuíramse novamente as taças.
— Hurra! gritou Juca levantando o braço. E os outros três responderam clamorosamente, a prolongar os hurras com bocejos.
O repousado aspecto da natureza contrastava com a feição dissoluta daquela libertinagem ao ar livre.
O carro havia parado, e o cocheiro apearase para ir buscar o café. Estavam perto da raiz da serra, numa encosta em que velhas árvores tranqüilas pareciam reunidas em concílio para uma deliberação religiosa. Juca descera do carro e passeava pela relva; Mendonça, de taça em punho, cantava um copia de opereta bufa; a sujeita acompanhavao com uma pobre voz de falsete, e Gabriel, sombrio, assentado ao fundo do carro, com a vista embaciada, entretinhase a olhar fixamente para um grupo que a pouca distância havia parado no caminho.
A cabeça andavalhe à roda.
Depois de pequena pausa, o grupo continuou a andar, subindo a estrada em tardio e pesado passo.
Gabriel pôde então distinguir melhor de que o grupo se compunha. Era sem dúvida algum enfermo acompanhado pela família, que demandava a serra da Tijuca em busca de ar puro. Vinha na frente uma cadeirinha carregada à moda antiga por dois negros, guardavalhe a portinhola um homem idoso acabrunhado pela dor, e logo atrás uma velha carruagem de aluguel com a cúpula fechada.
O grupo parou de novo quase defronte do carros dos folgazões.
Mendonça e a loureira calaramse instintivamente, Gabriel ergueuse sobressaltado; através das sombras da sua embriaguez, lhe pareceu haver reconhecido aquele homem que guardava a porta do palanquim, e por ele podia calcular com segurança quem era a infeliz criatura que ia ali enferma ou talvez moribunda. O coração saltoulhe por dentro, na medrosa previsão de remorsos e íntimas vergonhas.
Os negros depuseram no chão a cadeirinha; desviaram dos varais os ombros ratigados, e afastaramse para descansar um instante.
Moveuse então a cortina da portinhola; débil mãozinha arredoua de dentro com dificuldade, e uma feminil cabeça loura surgiu à luz dourada da manhã. No seu rosto, mais pálido que o de uma santa de cera, fulguravamlhe os olhos com estranho brilho.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.