Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
São os bispos que fazem o clero. Desde que os bispos, além de sábios e moralizados, são zelosos, dedicados e severos, os padres vão seguindo as suas pisadas, e brilham também por sua vez pelo zelo e pela dedicação.
A criação do bispado da Bahia começou a melhorar pouco a pouco, mas sensivelmente a situação do clero; e por certo que se devia, contar com a sua desejada regeneração, se algumas lamentáveis ocorrências e um subseqüente e fatal acontecimento não viessem perturbar a obra santa de Pedro Fernandes Sardinha.
O nosso primeiro bispo intrigou-se com o governador-geral que sucedera a Tomé de Sousa, e a tal ponto se perturbaram as relações entre ambos que o bispo foi chamado a Lisboa, e como é sabido, naufragou e caiu nas mãos do gentio feroz, que o devorou sem piedade.
Facilmente se compreende a falta que deveria ter feito o bispo logo no princípio do seu empenho regenerador do clero, falta que só se preencheu três anos e meio depois da morte do venerando mártir.
Os fundamentos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foram lançados no tempo do segundo bispo D. Pedro Leitão. Continuou, porém, o sistema de mandar para o Brasil degradados e gente sem escolha, ou antes, colonos escolhidos desajeitadamente. E ainda mais, sobreveio poucos anos depois o domínio espanhol, e como uma das suas lamentáveis conseqüências, o enfraquecimento do prestígio e da força da autoridade em muitos pontos do Brasil, e o natural desgosto da população colonizadora.
Não é, pois, de admirar que também entrassem os padres com o pé esquerdo no Rio de Janeiro.
Os bispos habitavam na cidade do Salvador; as outras cidades e vilas nascentes distavam muito daquela capital, as comunicações eram dificílimas, e por conseqüência, ressentia-se de tudo isso a disciplina.
Onde estava o bispo mostravam-se mais zelosos e dignos os padres. Onde ele não estava, onde se sentia fracamente a sua influência, a desordem e os abusos continuavam.
Os primeiros sacerdotes que tomaram a seu cargo o curativo das almas dos habitantes da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, fundada em 1567, foram jesuítas, e desses não posso lembrar-me sem gratidão pelo que fizeram naquela época, e ainda durante muitos anos além dela, o que, aliás, não implica com a profunda convicção que tenho das suas perniciosas tendências e dos males que fizeram em tempos posteriores.
O primeiro pároco da então única freguesia de que constava a cidade de S. Sebastião foi o padre Mateus Nunes, presbítero do hábito de S. Pedro, que entrou no exercício do seu cargo em princípios de 1569.
No entanto, vieram chegando à nova colônia diversos clérigos seculares.
Em 1577, recebeu a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro um prelado independente da jurisdição do bispo da Bahia. Desde essa época, porém, até a criação do bispado do Rio de Janeiro, as desordens, as lutas e as desinteligências com os diversos prelados que se sucederam foram de tal natureza e importância, que eu não posso senão reconhecer e lamentar a profunda desmoralização dos colonos e dos padres da nascente povoação.
O primeiro prelado foi o padre Dr. Bartolomeu Simões Pereira, que, depois de resistir a uma oposição odienta e desregrada, teve de retirar-se, provavelmente em 1592, para a capitania do Espírito Santo, onde acabou, dizem as memórias do tempo, com suspeitas de envenenado.
O segundo prelado foi o padre dr. João da Costa, que, perseguido como o seu antecessor, no Rio de Janeiro, pensou ir achar sossego na vila de S. Paulo: mas aí mesmo viu-se injuriado e até apupado na rua, e morreu sob o peso de desgostos e de afrontas, depois de deposto do seu cargo por sentença da relação da Bahia.
O terceiro prelado foi o padre dr. Mateus da Costa Aborim, que, do ano do 1607 ao de 1629, experimentou a mesma oposição, que, aliás, tornou ainda mais forte pelos seus próprios excessos e violências, atacando a autoridade civil e até excomungando a câmara municipal. Lutou, pois, com energia e às vezes com descomedimento e morreu, dizem alguns, envenenado, como o padre Bartolomeu Simões Pereira.
Seguiram-se ao padre Dr. Aborim, interinamente, porém, o d.
abade de S. Bento, frei Máximo Pereira, por nomeação do bispo da Bahia,
protestando o clero da cidade do Rio de Janeiro não demitir de si a eleição do
prelado interino em qualquer outra vacância. E no fim de quatro meses o padre
Pedro Homem Albernaz, por nomeação do clero. Frei Máximo Pereira retirou-se
para Lisboa e o padre Albernaz serviu até 1632, escapando ambos às intrigas e
às hostilidades já acostumadas pelo cuidado que tiveram de deixar apenas sentir
a sua influência no exercício do cargo que ocuparam.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.