Por José de Alencar (1872)
- O Afonso é endiabrado!
- Tem a quem sair.
- Oh! Se tem! Cá o Luís foi de truz!
- Um maganão chapado!
- Como se enganam! retorquiu Luís a rir. Sempre fui da pacata!
- Da sonsa, talvez!
- O que sei é que no nosso tempo ninguém punha pé em ramo verde!
- Mas não pescava senão peixões.
- Que história estão vocês aí a inventar? tornou o fazendeiro com disfarce.
- E a filha do Guedes, lembra-se?
- A que o marido abandonou?
- A Besita, sim!
- Essa não! exclamou involuntariamente Galvão contrariado.
- Ora negue! Antes e depois.
- Do parto?
- Do casamento!
- Que tal o cujo? exclamaram diversos.
Uma risada geral acolheu a pilhéria, que perturbou o fazendeiro.
- Mudemos de conversa! disse ele com algum vexame.
D. Ermelinda que se tinha aproximado da janela vizinha, à procura da filha, apanhara aquele trecho de conversa; e teve um aperto de coração.
Esquecendo-se do que a trouxe à janela, submergiu-se em uma triste cogitação, com a face apoiada na palma da mão; nem viu mais o que se passava no terreiro, ali quase em face dela.
Miguel continuava a falar a Linda, sobre coisas indiferentes. Mas não escutava a menina essas palavras sem sentido naquele momento: toda ela repassava-se da voz palpitante que penetrava-lhe a alma como a suave melodia de um hino de amor.
Avistara Berta a figura de D. Ermelinda; e receando estranhasse ela a intimidade que tão rapidamente se estabelecera entre a filha e Miguel, correra para disfarçadamente avisar à amiga da presença da mãe, e evitar assim aos dois namorados uma contrariedade.
Outra vez se esquecia de si para lembrar-se de Linda? Ou sua alma generosa desforravase por aquele modo, com mais um impulso de abnegação, do esquecimento dos dois amantes?
Foi nessa mesma ocasião que soara o clamor dos rapazes junto ao mastro, o qual oscilava com fortes vibrações e ameaçava partir-se ou arrancar-se do chão, ao peso excessivo que de repente lhe carregara a ponta.
No momento em que Afonso chegava-se para tentar a subida, o pinheiro estremecera violentamente abalado; e os rapazes surpresos descobriram o Brás encarapitado no cimo a que se agarrava com unhas e dentes.
O isolamento e a melancolia de Berta haviam impressionado o idiota, que ruminou em seu bestunto sobre a causa dessa mudança. O rude engrolo de idéias que amassou no cérebro grosseiro, não obteria ele jamais exprimir; nem é possível descreve-lo,
A maior alegria era junto do mastro onde galhofavam os rapazes, e as moças palpitavam à espera da prenda que seu apaixonado alcançaria para ofertar-lhe. Til se afastara e parecia triste; ela, sempre travessa e contente. Devia de ser porque também cobiçava as galanterias que estavam no cabaz preso à ponta do mastro.
Desde então a animalidade do estafermo se resumiu em um só desejo, que tornou-se em ânsia ou desespero de subir ao tope do mastro. Mas como, se ele não se animava a aproximar-se da roda dos rapazes, com receio da vaia que sofreria? Além de que, bem sabia que suas pernas trôpegas não eram para aquele árduo esforço.
Surdiu-lhe uma lembrança. As janelas do mirante ficavam sobranceiras ao tope do mastro, e a última delas justamente defronte, embora em distância que um homem ágil não poderia transpor de um salto.
Que lhe importava! Ele era um louco; e, para levar ao cabo temeridades desse jaez, tinha a grande vantagem de sua brutalidade. Aproveitando-se da distração de Berta, escapou-se de seu lado; sorrateiro ganhou o interior da casa e subiu ao mirante.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.