Por José de Alencar (1872)
- E à sua! disse afinal com emoção. O senhor poderá casar-se com aquela a quem ama, Luísa, não é o nome? O primeiro assomo de Fábio foi a negativa; mas à sua alma, nobre no meio da volubilidade e extravagância da mocidade folgazã, repugnou essa apostasia de sua primeira afeição.
- Eu amo Luisinha, confesso; mas também a amo, D. Guilhermina, e com paixão!
- Essa paixão é impossível.
- Porque a senhora a despreza.
- Eu devo-lhe as únicas alegrias de minha vida, condenada a um triste desencanto. Deixe-me guardar estas recordações doces e puras dos dias passados; não devemos envenená-las com um crime que faria a infelicidade de duas pessoas e a nossa.
Fábio travara da mão da senhora e a beijava. D. Guilhermina retirando-a enternecida, chamou a amiga para romper o a sós que a estava comovendo:
- Guida!...
- Cruel!...
- Ainda não satisfez o meu pedido sobre a dívida de seu amigo.
- Oh! isso é fácil. O pai de Ricardo deixou a chácara hipotecada na casa bancária de Gavião Peixoto pela quantia de dez ou doze contos de réis; mas com os juros já monta a dívida a vinte. Desembaraçada a casa, podia D. Benvinda viver com a família modestamente sem pesar sobre o filho.
- O senhor me há de dar por escrito uma lembrança de tudo isto, com os nomes...
- Para quê? tornou o moço com escrúpulo.
- Já lhe disse.
- Para apressar o casamento de Ricardo com Bela?... Mas é inútil.
- Deveras? perguntou D. Guilhermina lançando um olhar para Guida que se aproximava.
- Foi uma surpresa! Ontem, quando menos esperava, recebeu Ricardo uma carta de São Paulo. Abriu; era de Bela, que lhe participava seu casamento com o Lemos, outro primo.
Ouviu Guida essa notícia, ao aproximar-se; e vacilou com a emoção que abalou o seu talhe esbelto. Felizmente passava naquele momento por uma estátua de bronze representando Flora, cujo pedestal lhe serviu de apoio e também de refúgio para esconder a alteração do gesto, pois Fábio colocado do lado oposto não podia perceber-lhe o vulto. Notando o soçobro da amiga, a arfagem violenta do seio, que se expandira com o ímpeto d’alma, e a contração do rosto ao esforço da vontade a reprimir o grito que rompia do seio, D. Guilhermina voltou-se para o outro lado, o que obrigava o moço a imitá-la, desviando assim os olhos da estátua.
- O que dizia a carta? perguntou a mulher do Barros.
- Não devia Ter dado a notícia, disse Fábio arrependido; mas como sempre se havia de saber...
- Decerto. Que mal faz?
- Quanto à carta, não posso. Ricardo não me perdoaria.
- Essa é a confiança que lhe mereço? disse D. Guilhermina queixosa.
- Se fosse meu, não hesitaria. Mas este segredo não me pertence.
- E pertencia-me a mim a afeição que lhe dei?
- Direi, com uma condição.
- Por negócio, dispenso.
E a moça deu ao talhe uma lânguida inflexão que era o irresistível condão de sua beleza.
- Pois bem, à senhora eu conto, disse o moço correndo o olhar em torno.
Guida, já sobre si, tivera o cuidado de colher a cauda do vestido e ocultar-se por trás do pedestal de bronze, de modo que Fábio não se apercebeu de sua presença.
- Pode falar, disse D. Guilhermina. Ninguém nos ouve.
- A carta era muito curta. Bela dizia a Ricardo que, não podendo fazer sua felicidade, cedia aos desejos do pai aceitando o esposo que tinha escolhido.
- E o Ricardo, como recebeu a notícia?
- Tem sentido muito. Ele amava sinceramente a prima; era uma afeição de infância.
- Mas há de consolar-se.
- Que remédio!
- Os homens esquecem depressa!
- As injustiças que lhes fazem aquelas a quem adoram.
- Há de ver que daqui a um mês o Ricardo amará outra.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.