Por José de Alencar (1875)
Flor com instinto de menina, o qual tem já muito do tato feminino, breve apercebeu-se da influência que seu meigo sorriso e sua branda súplica exerciam no ânimo do colaço. Também a altivez nela era nativa; e já naquele tempo sentia o prazer especial da dominação. Habituou-se, pois, a êsse doce império, que em breve transformou os dois teimosos nos melhores camaradas.
É certo que lá vinham ainda de vez em quando uns choques entre a menina caprichosa e o rapazinho arisco; mas dissipacam-se logo essas nuvens, e Flor reassumia o despotismo de sua garridice afetuosa.
Justa descobrira enfim o meio infalível de impedir as estrepolias do filho, contra as quais nada valiam seus rogos e lamentaços. Bastava que Flor chamasse Arnaldo com a mãozinha ou com a voz maviosa para que o menino esquecesse a mais gostosa travessura.
Estas recordações sucediam-se no espírito de D. Flor e a absorviam tanto, que ao dar côbro de si achou-se no poial da janela, onde não tinha lembrança de se haver sentado.
Vieram chamá-la para o jantar; mas ela, escudeira infatigável, pretestou cansaço, para de novo mergulhar-se nestas cismas, que a consolavam do desacato do sertanejo.
XI – Adolescência
O sol descambava.
D. Flor abriu as gelosias da janela e divagou os olhos pela floresta, que arreava-se então de toda a sua pompa vernal com a estação das águas.
Naquele extenso painel de verdura, cada árvore debuxava-se com uma forma e um matiz diverso. Viam-se todos os moldes da arquitetura desde a coluna e a pirâmide até a cúpula e o zimbório. O pincel do mais fino colorista não imitaria a gradação daquela admirável palheta desde o verde negro do jacarandá até o verde gaio do espinheiro.
Próximo à casa havia uma árvore sêca, mas a exuberância da seiva não consentindo que no seio da esplêndida transfiguração hibernal se destacasse um indício de ruína e perecimento, cobrira aquele esqueleto de um manto de púrpura, tecido com as flores de uma bignônia.
Um passarinho saltava do galho superior da árvore a outro mais baixo; e com êsse vôo compassado e alterno imitava perfeitamente o movimento da laçadeira, donde lhe veio o nome de rendeira, com que o designaram os povoadores.
D. Flor acompanhando o gracioso afã do passarinho, distraiu-se outra vez, e foi de novo levada por misterioso fio às cenas da infância.
Quem sua imaginação via, já não era o menino mal trajado e rôto, com a cara coberta de poeira, os cabelos cheios de carrapichos, e as mãos sujas de sangue. Agora aparecia um rapazinho de quinze anos, rude como sertanejo que era, mas trazendo com certo garbo nativo as vestes de couro de veado, que seu pai lhe tinha feito.
Arnaldo estava então na adolescência. Já ajudava o pai a campear; mas desde aquele tempo manisfetara-se sua repugnância para todo o serviço obrigatório, feito por ordem e conta de outro. Tinha êle paixão pela vida de vaqueiro, e passava dias e semanas no campo fazendo voluntariamente o trabalho de dois bons ajudantes, e entregando-se com entusiasmo a todos os exercícios daquele mister laborioso. Se, porém, lhe determinavam tarefa, desaparecia e ganhava o mato, onde se divertia a caçar.
Dois meninos tinham aumentado a sociedade infantil da Oiticica. Eram Alina, que ficara órfã pouco tempo antes, e fôra com sua mãe recolhida por D. Genoveva, e Jaime Falcão, um sobrinho do capitão-mór, e também órfão, o qual esteve quatro anos na fazenda, até os quinze anos, em que foi para Lisboa viver na companhia do avô.
Êsse Jaime, a-pesar-de mais velho que Arnaldo, lhe ficava muito inferior na fôrça, destreza, coragem e em todos os dotes físicos. Nos folguedos a cada instante revelava-se esta desigualdade que contrariava o vencido, e acabou por gerar um despeito concentrado.
Arnaldo não se ofendia com o afastamento, nem com as picardias de Jaime. Tomara-lhe amizade; e procurava todas as ocasiões de agradar-lhe. Até evitava mostrar a sua agilidade para não desgostar o companheiro. Tudo quanto possuia o vaqueirinho, fruta, pássaro, caça, era de Jaime, salvo se D. Flor o desejava, porque essa era a senhora de todos.
Jaime porém, se era invejoso, tinha o brio e a dignidade de seu ressentimento. Embora fosse muita a cobiça por alguma novidade que Arnaldo trazia do mato, não a pedia, e oferecida, recusava-a. Era D. Flor que então acabava a briga: fazendo seu o objeto, o dava ao primo, que daquela mãozinha mimosa não se animava a rejeitá-lo.
Alina, mais moça do que os outros, e de gênio sossegado, não tinha ainda naquela sociedade infantil uma fisionomia própria, a não ser a sua risonha e afetuosa brandura. Só em um ponto sua vontade pronunciava-se: era quando os companheiros voltavam-se contra Arnaldo, porque então ela tomava seu partido e abraçava-se com êle, e chorava para enternecer os outros.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.