Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Depois entrou a rir-se e a cantar. Que rir! que cantar aquele!... até então eu não sabia que a morte tinha também seus risos e seus cantos.
Continuou a rir-se e a cantar; a brincar com os meus cabelos, e a beber minhas lágrimas.
Houve um momento terrível! um tremor súbito e desesperado agitou convulsivamente todo seu corpo...
Cessou de rir-se e de cantar. Olhou-me... que olhar!... era um adeus que se dizia por mil modos nos seus olhos.
Tinha talvez desaparecido o delírio, mas ela já não podia falar.
Ouvi alguém, a poucos passos, dizer baixinho – é chegada a hora: – oh! compreendi tudo... soltei um grito.
Escutando esse grito, que me saiu do coração, minha mãe agarrou com suas duas mãos a minha cabeça, e com força indizível levantou-me, aproximou meu rosto ao rosto dela, uniu meus lábios aos seus, deu-me um longo e ardente beijo, e expirou.
A vida... a alma lhe saiu pelos lábios. Oh! sim, porque ela morreu beijando sua filha.
As almas de meus pais, antes de subir ao céu, tinham passado por mim: a alma de meu pai pelos meus olhos; a de minha mãe pelos meus lábios.
Como eu fiquei então!... não se diz.
Não se morre de dor.
E estava órfã.
Deixei de ser como uma flor que se desabotoa.
IV
Eu era uma pobre órfã.
Tinha começado a ser como a pomba que geme solitária.
Chorei! chorei muito! quando não tive nos olhos mais lágrimas para chorar, chorei saudades no coração; choro-as ainda. Mas resisti, e resisto, graças à educação que me deram meus pais.
Eles me ensinaram a ter fé e esperança em Deus; ensinaram-me, na prosperidade, a ser cristã: sou cristã na desgraça.
Quem crê em Deus, chora, mas resiste.
Eu chorei, e resisti.
Tenho esperança de ver ainda meus pais aos pés do Senhor Deus... não sei quando será; mas espero.
Esta esperança me anima. No entanto meu coração está sempre cheio de saudades, que não hão de acabar nunca.
Eu pois sou agora como uma pomba que geme solitária.
V
Passou-se um ano.
Um ano de lágrimas é muito tempo: é um século.
Passou-se mais tempo ainda; chegou o dia de finados.
Fui rezar no túmulo de meus pais.
Rezavam lá...
Oh! se soubessem como um coração de filha agradece uma oração que se reza por seus pais!...
Rezavam lá!... uma mulher e um homem.
A mulher era uma velha que eu conhecia; o homem não.... eu o via então pela primeira vez.
Mas esse homem... a velha ergueu-se, e eu lancei-me de joelhos no mesmo lugar que ela havia ocupado.
Fiquei junto desse homem que rezava por meus pais...
Oh! pela primeira vez que nos encontrávamos na vida, nossos pensamentos se uniam, se misturavam, e subiam juntos ao céu tão iguais... tão parecidos, como dois irmãozinhos gêmeos!...
Oh!... nós não nos havíamos visto nunca, não nos tínhamos olhado ainda, e nossas almas se correspondiam já, falando a linguagem do Senhor... rezando...
Ele ergueu-se enfim... e fugiu. Eu senti que ele chorava e soluçava.
Eu não sabia se ele era moço ou velho, bonito ou feio, rico ou pobre... e contudo desde esse momento eu amei esse homem.
Amei esse coração generoso que se fora ajoelhar junto ao túmulo de meus pais!
Esse homem amava portanto meus pais!
Era pois meu irmão no amor, meu irmão nas lágrimas e nas orações; quero...
devo amá-lo. O mais sagrado dos laços uniu-nos aos olhos de Deus à face de um túmulo.
Eu o amo.
Quem é ele?...
VI
Enfim, já pude vê-lo de perto. Veio visitar-nos, acompanhando a velha Irias.
Ele é moço e pálido, é triste e modesto; é belo.
Parece que esconde no coração um grande tormento, que ninguém compreende, e que ele abafa.
Pálido, triste e silencioso, sua figura tem um não sei quê de gracioso e fantástico, que toca na alma e faz arder a imaginação.
Se ele passa por diante de vós, sem querer vós vos lembrais da sombra de um ramo de palmeira, quando um ramo de palmeira, em noite de claro luar, é impelido por brandos favônios.
Às vezes fica pensativo horas inteiras; torna-se alheio a quanto se passa em torno dele...
É belo vê-lo assim; parece que transportado contempla uma visão. Ninguém lhe fala, e ele sorri... se entristece... se espanta... e murmura frases ininteligíveis como se estivesse conversando com algum ser invisível.
Será um louco?... não: ele é um poeta; eu já sonhei que os poetas eram assim.
Eu gosto dos poetas.
Os poetas são homens que mal vivem neste nosso mundo, e que são senhores de mil mundos; habitam um espaço entre o céu e a terra, e falam a língua das aves e das flores, das montanhas e dos mares, dos fantasmas e dos anjos.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.