Por Lima Barreto (1911)
As “salvações” dos Estados não tinham continuado, mas os debates na Câmara eram furiosos e apaixonados. A administração continuando nos seus processos, enchia as galerias de secretas e valentões; e, quando os deputados da oposição se referiam mesmo respeitosamente ao honrado general Bentes, um dos seus asseclas puxava o revólver e apontava-o para o orador, cobrindo-o das mais sujas injúrias.
O presidente da Câmara mandava chamar o entusiasta e dizia-lhe amigavelmente, paternalmente:
— Você não toma juízo, Lucrécio.
Não há nada perigoso do que um entusiasmo pago e os parlamentares temiam sobremodo os defensores humildes do honrado general Bentes.
Campelo fora eleito deputado em uma das vagas, para enfrentar o célebre orador da oposição Júlio Barroso. A erudição deste, a sua voz cortante, a sua honestidade de proceder e de vida davam força e um prestígio extraordinário às suas orações.
Campelo fazia também discursos; tinha uma voz agradável, mas não tinha nem o saber, nem a força de Barroso. Se se tratasse de canto, podia-se dizer que Campelo tinha uma voz de salão, um bom timbre, mas sem extensão de volume. Quando se anunciava um discurso de Barroso, a Câmara enchia-se; enchiam-se as galerias, os corredores, as tribunas; Lucrécio e seu pessoal ajudavam a encher o edifício e, tal era o poder de sedução do orador, a fascinação da sua palavra, que eles o aplaudiam candidamente. Campelo, tendo notado isso, resolveu tomar um alvitre. Como deputado, ficava no recinto, bem perto do orador, e de lá fazia sinais a Lucrécio quando devia protestar com o seu pessoal. Assim mesmo, o orador conseguia vencer os obstáculos e ficou resolvido que os governistas o interrompessem com constantes apartes.
A sessão de vinte e cinco de Outubro foi particularmente agitada. Depois de ser lido o expediente, o presidente deu a palavra a um deputado “bentiano” que explicou a sua atitude votando a favor da rejeição do veto oposto ao projeto de venda da Estrada de Ferro de Mato Grosso. Não era escravo de suas opiniões políticas, dizia; não temia a opinião pública, mas também não temia a oposição facciosa e arruaceira.
Júlio Barroso — Protesto! Peço a palavra!
O presidente tocou os tímpanos e pediu a atenção. O deputado disse que era uma injúria à classe que pertencia o honrado presidente eleito supô-lo capaz....
Júlio Barroso — Que tem uma coisa com outra? Peço a palavra.
O Orador —... capaz de patrocinar traficâncias. O honrado general Bentes pertence a esse cadinho de heróis, etc. etc.
Acabou o discurso e o presidente deu a palavra aos deputado Júlio Barroso. Houve rumores de cadeiras que se arrastam, de bancadas que caem, e todos tomaram os seus lugares. Os jovens deputados, na idade e nos dias de Câmara, ficaram atentos.
Júlio Barroso — Sr. presidente. Eu não sei, não me entra absolutamente na compreensão, como militar que sou, quando não sou camarada: se quando sou por
Huerta contra Crranza, se quando sou por Carranza contra Huerta?
Willis — Não apoiado! A ravem carried of his claws pieces of poisoned meat wich the enraged gardener had throw ipon the ground for his neighbour’s cats.
O aparte do deputado Willis foi muito bem recebido; e a um sinal de Campelo, houve palmas nas galerias a seguir-se às do recinto.
Fez-se um pouco de silêncio e ouviu-se o seguinte aparte:
Eddin Nazib — Parque? Né mifahman.
Palmas estrepitosas cobriram a voz do deputado persa, a um aceno de Campelo.
Presidente — Peço atenção! As galerias não podem se manifestar.
O Orador— Em tão premente colisão o meu espírito de classe...
Caracoles — V. Exa. não pode dizer isso. Poco me faltó para fallecer cuando llegué a casa de Melisa: de todos los poros me brotaba el sudor frio, se me cerraban los ojos, y costó gram trabajo hacerme recobrar el conocimiento.
ABD-EL-CHEFFIF — De acordo. Nehabbeck; ma fchemtche.
Como o aparte anterior, este foi recebido delirantemente. Campelo fez um sinal e houve palmas na galeria.
O Orador—... indaga se é mais militar Carranza ou Huerta e tenho que procurar no
Almanack...
Theampulos — Deu palalavéno.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.