Por Aluísio Azevedo (1890)
Essa noite, a bebedeira de Piedade foi completa. Quando João Romão entrou, de volta da casa do Miranda, encontrou-a a dançar ao som de palmas, gritos e risadas, no meio de uma grande troça, a saia levantada, os olhos requebrados, a pretender arremedar a Rita no seu choradinho da Bahia. Era a boba da roda. Batiam-lhe palmadas no traseiro e com o pé embaraçavam-lhe as pernas, para a ver cair e rebolar-se no chão.
O vendeiro, de fraque e chapéu alto, foi direito ao grupo, então muito mais reforçado de gente, e intimou a todos que se recolhessem. Aquilo já não eram horas para semelhante algazarra!
— Vamos! Vamos! Cada um para a sua casa!
Piedade foi a única que protestou, reclamando o seu direito de brincar um pouco com os amigos.
Que diabo! não estava fazendo mal a ninguém!
— Ora vá mas é pra cama cozer a mona! vituperou-lhe João Romão, repelindo-a. Você, com uma filha quase mulher, não tem vergonha de estar aqui a servir de palhaço?! Forte bêbada!
Piedade assomou-se com a descompostura, quis despicar-se, chegou a arregaçar as mangas e sungar a saia; mas o Pataca meteu-se no meio e conteve-a, pedindo a João Romão que não levasse aquilo em conta, porque era tudo cachaça.
— Bom, bom, bom! mas aviem-se! Aviem-se!
E não se retirou sem ver a roda dissolvida, e cada qual procurando a casa.
Recolheram-se todos em silêncio; só o Pataca e Piedade deixaram-se ficar ainda no pátio, a discutir o ato do vendeiro. O Pataca também estava bastante tocado. Ambos reconheciam que lhes não convinha demorar-se ali, porém nenhum dos dois se sentia disposto a meter-se no quarto.
— Você tem lá alguma coisa que beber em casa?... perguntou ele afinal.
Ela não sabia ao certo; foi ver. Havia meia garrafa de parati e um resto de vinho. Mas era preciso não fazer barulho, por’mor da pequena que estava dormindo.
Entraram em ponta de pés, a falar surdamente. Piedade deu mais luz ao candeeiro.
— Olha agora! Vamos ficar às escuras! Acabou-se o gás!
O Pataca saiu, para ir a casa buscar uma vela, e de volta trouxe também um pedaço de queijo e dois peixes fritos, que levou ao nariz da lavadeira, sem dizer nada. Piedade, aos bordos, desocupou a mesa do engomado e serviu dois pratos. O outro reclamou vinagre e pimenta e perguntou se havia pão.
— Pão há. O vinho é que é pouco!
— Não faz mal! Vai mesmo com a caninha!
E assentaram-se. O cortiço dormia já e só se ouviam, no silêncio da noite, cães que ladravam lá fora na rua, tristemente. Piedade começou a queixar-se da vida; veio-lhe uma crise de lágrimas e soluços. Quando pôde falar contou o que lhe sucedera essa tarde, narrou os pormenores da sua ida com a filha à procura do marido, o jantar em comum com a peste da mulata, e afinal a sua humilhação de vir de lá enxovalhada e corrida.
Pataca revoltou-se, não com o procedimento de Jerônimo, mas com o dela.
Rebaixar-se àquele ponto! com efeito!... Ir procurar o homem lá na casa da outra!... Oh!
— Ele tratou-me bem, quando lá fui da primeira vez... Hoje é que não sei o que tinha: só faltou pôr-me na rua aos pontapés!
— Foi bem feito! Ainda acho pouco! Devia ter-lhe metido o pau, para você não ser tola!
— É mesmo!
— Pois não! O que não falta são homens, filha! O mundo é grande! Para um pé doente há sempre um chinelo velho! — E ferrou-lhe a mão nas pernas:— Chega-te para mim, que te esqueceras do outro!
Piedade repeliu-o. Que se deixasse de asneiras!
— Asneiras! É o que se leva desta vida!
A pequena acordara lá no quarto e viera descalça até à porta da sala de jantar, para espiar o que faziam os dois.
Não deram por ela.
E a conversa prosseguiu, esquentando a medida que a garrafa de parati se esvaziava. Piedade deu de mão aos seus desgostos, pôs-se a papaguear um pouco; as lágrimas foram-se-lhe; e ela manducou então com apetite, rindo já das pilhérias do companheiro, que continuava a apalpar-lhe de vez em quando as coxas.
Aquelas coisas, assim, sem se esperar, é que tinham graça!... dizia ele, excitado e vermelho, comendo com a mão, a embeber pedaços de peixe no molho das pimentas. Bem tolo era quem se matava!
Depois lembrou que não viria fora de propósito uma xicrinha de café.
— Não sei se há, vou ver, respondeu a lavadeira, erguendo-se agarrada à mesa.
E bordejou até à cozinha, a dar esbarrões pela direita e pela esquerda.
— Tento no leme, que o mar está forte! exclamou Pataca, levantando-se também, para ir ajudá-la.
Lá perto do fogão agarrou-a de súbito, como um galo abafando uma galinha.
— Larga! repreendeu a mulher, sem forças para se defender.
Ele apanhou-lhe as fraldas.
— Espera! Deixa! — Não quero!
E ria-se por ver a atitude cômica do Pataca vergado defronte dela.
— Que mal faz?.. Deixa!
— Sai daí, diabo!
E, cambaleando, amparados um no outro, foram ambos ao chão.
— Olha que peste! resmungou a desgraçada, quando o adversário conseguiu saciar-se nela. Marraios te partam!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16534 . Acesso em: 15 mar. 2026.