Por Aluísio Azevedo (1897)
O Costa era bonito e perfumado, tresandando a mulheres; jóias caras, roupa bem feita. Tornarase falado no seu meio por certas famosas surras que de vez em quando lhe arrumava; em crise de ciúme, a sujeita a quem ele de corpo e alma pertencia desde os seus primeiros passos na vida da pândega fluminense, uma tal Aninha Rabicho, célebre entre os libertinos dos dois sexos por ser proprietária de um prédio e cinco escravos, adquiridos com o produto das suas gloriosas economias.
O outro cogumelo, o Paiva, tinha o ar mais sério e a roupa menos apurada. Nascera de pais abastados, que lhe deixaram uma medíocre fortuna e uma rara ignorância. A fortuna comeua ele logo que se emancipou, a outra, porém, é que se não deixou tragar assim tão facilmente, e a cada nova aurora reflorescia mais grimpadora e viçosa. Diziam dele, entretanto, que, para embaricar um bom cágado num lasquenetezinho bancado, não havia no Rio de Janeiro mão mais limpa, nem mais lúcida cultura.
Depois do ardente desfilar das sociedades carnavalescas, seguiram os três e mais Rita Beijoca para o hotel dos Príncipes, onde a bela crápula fervia de portas adentro num inferno de guinchos e risadas em falsete.
O Barros, que era o gerente do hotel, mal os viu entrar, levantouse a recebêlos com tal risinho açucarado, e mandou pela surrelfa chamar lá em cima, com urgência, a Rosa Cantagalense.
A Rosa Cantagalense, apesar de simples hóspede no hotel, podia a justo título dizerse o braço direito do Barros, e tinha por isso, sobre as despesas extraordinárias a que obrigasse os fregueses de boa lá, certa percentagem que lhe era abatida nas próprias contas. Entre as muitas e variadíssimas tosquiadoras do principesco estabelecimento, era ela a única deveras perfeita naquele agronômico e astucioso trabalhinho, a única que sabia a primor tosar uma desgarrada ovelha, sem que desse por tal a paciente, enquanto não estivesse de todo tosquiada.
A Cantagalense não desceu ao chamado do gerente; mando dizer que: "Ainda estava ocupada a despachar o mineiro..."
O Barros subiu logo de carreira a ter com ela.
Veio a loureira falarlhe à porta do quarto, em meias e roupão de alcova:
— É preciso esperar mais um pouco, segredou, a piscar o olho, no ardiloso tom que as regateironas põem nas suas palavras quando tratam de negócio. Agora é que ele está pegando no sono...
— Fizesteo gastar mais alguma cousa no quarto?... perguntou o Barros com interesse.
— Fiz, respondeu a outra; creio que ele não deixará menos de uns duzentos milréis...
— Bem; mas, aviate daí, que és necessária lá embaixo. O Gabriel chegou já, e vem de troça! Estão todos meios prontos.
— Eles que se vão servindo; eu já desço!
O mineiro, que se achava recolhido ao quarto do hotel dos Príncipes, havia chegado esse mesmo dia de Minas, com intenção de assistir pacificamente às festas do carnaval do Rio.
Às três e meia da tarde sentiu vontade de jantar, e a desgraça o levou ao hotel dos Príncipes.
O mineiro comeu com apetite e achou até muito bom o que lhe serviram. Mas, enquanto comia, reparou que, de certa mesa, uma mulher bonitona olhava para ele com meiga insistência
Era a Cantagalense, que nessa ocasião acabava de almoçar.
O mineiro não se preocupou com isso, e continuou a atacar as vitualhas com uma considerável energia e um silêncio mais solene.
À sobremesa, porém, a tentadora já havia levantado, e viera assentarse à mesa imediata à do nosso mineiro.
O bom homem fezse da cor de uns marmelos em calda que nessa ocasião triturava, e só conseguiu levantar os olhos ao fim de alguns segundos.
— A senhora é servida?... perguntou ele no gracioso sotaque da sua província.
A loureira agradeceu e, com tal mimo lhe pediu que aceitasse um taça do seu vinho, que o amimado não resistiu ao convite.
Para não ficar atrás, fez vir champanha. A moça então por sua conta e risco pediu uma salada de ananás cozido em madeira, um pudim negro e borgonha para destemperar o cliquot. Depois vieram charutos, cigarrilhos café e licores.
Daí a nada, o mineiro recebia uma ardente declaração de amor e correspondia contando francamente a sua vida e os seus negócios.
É inútil dizer que em seguida a isso as cousas foram muito longe, e que a dourada mosca, uma vez prisioneira nas teias da ardilosa aranha, tinha de ser chuchadinha até a última gota de sangue.
O jantar de Gabriel, a que a sugadora do mineiro não faltou do meio para o fim, correu com todas as suas costumadas pândegas; pouco apetite, muita chalaça tola, muito riso forçado e grande variedade de vinhos. Às duas da madrugada, a Cantagalense deixouse ficar no hotel, e os outros foram carnavalear um pouco aos "Tenentes do Diabo".
Às quatro meteramse de novo no carro, e mandaram tocar para a Tijuca, no meio de uma terrível gritaria.
O Costa Mendonça, que ocupava o banco da frente com o Paiva, parecia ter pólvora no sangue e não ficava quieto um só instante.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.