Por José de Alencar (1872)
Erguera-se D. Guilhermina, e a pretexto de olhar para a rua, afastou-se um momento para dominar a comoção produzida pelas palavras da amiga, e que no primeiro instante contida, a estava sufocando.
De seu lado favorecendo-lhe os desejos, Guida aproximara-se da casa, fingindo que a chamavam; mas realmente para deixar a outra em liberdade.
Quando de novo se encontraram, os olhos de D. Guilhermina estavam magoados, e as faces conservavam a marugem das lágrimas. Guida que se teria rido um mês antes, compreendeu aquela dor e respeitou-lhe a mudez, mostrando-se inteiramente alheia.
- Eu, se pudesse, disse Guida reatando a conversa, teria um prazer imenso fazendo-os felizes e realizando de repente os seus lindos sonhos!... Deve a gente sentir-se no céu, quando faz-se instrumento da graça e misericórdia de Deus!... O profundo sentimento que ressumbrava nestas palavras de Guida, o fervor de seu gesto e o esplendor que iluminou seu lindo perfil, surpreenderam D. Guilhermina que fitou admirada o rosto da amiga; a cintilação dessa luz que manava o coração, filtrou-lhe n’alma; ela compreendera.
- Também eu! murmurou corando.
- Pois ajude-me!
- Como?
- É preciso conhecer as particularidades da família... O Dr. Nunes, se eu lhe perguntar, desconfiará e com certeza há de recusar, mas o Fábio...
- Ele nunca me falou na família do Ricardo.
- Porque não lhe tocou nisso.
- Hei de perguntar-lhe!
- Talvez ele apareça aqui esta tarde.
- Não deve tardar... Isto é, creio que ele vem, corrigiu a tempo a moça com vexame.
Mas Guida não fez reparo; e afastou-se na direção do gradil, olhando para a rua através dos recortes da folhagem. Momentos depois voltou pressurosa ao lugar onde ficara D. Guilhermina triste e pensativa:
- Aí está ele.
Efetivamente chegava Fábio ao portão; e avistando as senhoras ao atravessar o jardim, foi-lhes ao encontro. Depois dos cumprimentos e banalidades usuais, Guida trocando com a amiga um olhar de inteligência, procurou um disfarce para deixá-la só com o Fábio.
- O senhor nunca me disse que seu amigo Fábio tinha uma irmã? foram as primeiras palavras que D. Guilhermina dirigiu ao moço, interrogando-lhe a fisionomia com o olhar.
Ficou passado o Fábio. Apesar de sua leviandade, evitava com o maior cuidado tocar no que tinha relação com sua vida de São Paulo, pelo receio de divulgar o seu ajuste de casamento com Luisinha.
Imagine-se pois do atordoado que estaria, vendo a pessoa de quem mais desejava esconder essas particularidades, tão ao corrente, e sentindo assim evaporar-se de repente o seu castelo encantado.
- Não sabia que a senhora tomava tanto interesse por meu amigo! respondeu o moço buscando uma evasiva nessa ponta de ciúme.
- Mais do que o senhor pensa; e tanto que desejo pedir-lhe certas informações a respeito dele.
- A mim!
- Sem dúvida. Não é o senhor amigo íntimo do Dr. Nunes?
- Por isso mesmo, deve compreender quanto as suas palavras me fazem sofrer.
- Não vejo motivo. Conheço uma pessoa, que, sendo infeliz no seu casamento, consola-se quando pode fazer a felicidade dos que se amam.
Vinham estas palavras envoltas em um suspiro e perfumadas de suave melancolia.
- E recusa fazer a minha, quando sabe a paixão com que a adoro!
- Essa pessoa soube, não sei como, que o Ricardo tinha um casamento ajustado em São Paulo com uma moça a quem ama; mas sua felicidade depende de uma soma necessária para o pagamento de certas dívidas... - Sua felicidade dependia de um escrúpulo. Hoje nem isso!...
- Deixe-me acabar. O que eu desejo que o senhor me diga, pois está no segredo da família, é o modo de pagar essas dívidas, sem que seu amigo saiba, nem desconfie, senão depois de tudo acabado. Assim não haverá mais impedimento à felicidade dele...
A voz da bela senhora afogou-se na reticência de uma lágrima.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.