Por José de Alencar (1875)
Justa, que ficara de joelhos à beira do rio e não cessara de rezar o têrço invocando Nossa Senhora da Penha e todos os Santos de sua devoção, correu soltando um grito de horror. Metida n’água até o seio, com os braços inteiriçados no vão intento de agarrar o filho, cuja cabeça ainda surgia de longe, por entre os borbotões da corrente, a mísera mãe enlouquecia de dôr, e lançava ao marido as maiores imprecações.
O Louredo a ouvia taciturno e sombrio. Quando o vulto do menino sumiu-se na volta do rio, acreditou que afinal Deus lhe havia levado o único filho que lhe concedera. A-pesar-de seu rude fatalismo, que o fazia considerar a morte do menino como o livramento de futura desgraça, pagou neste momento o tributo à natureza, e com os olhos rasos de lágrimas ajoelhou-se ao lado da mulher.
Estava aquele infeliz casal sucumbido pela perda do único filho, quando o foi surpreender uma voz bem conhecida, que vinha da outra banda do rio.
— Ande com isso, pai. Venha a minha trouxa!
— Arnaldo!… bradou Justa. É êle mesmo!… Minha Nossa Senhora da Penha, fostes vós
que o ressuscitastes!
— Ainda estás vivo, rapaz! Como foi isto?
— Ora o rio está mesmo desembestado, e pegou uma queda de corpo comigo, que foi uma história… Qual de-cima, qual debaixo; e já queria passar-me a perna, quando encontrei um toro de mulungú, e agora vereis. Montado no meu cavalo de pau fiz a todas.
Arnaldo tomara pé muito para baixo e viera pela beira do rio até alí. O pai jogou-lhe a ponta do laço, que êle amarrou em um tronco, e serviu de espia ao banguê ou balsa de couro, em que o vaqueiro transportou-se para o outro lado com a Justa.
— Descanse, mulher, que êste menino não morre. Êle tem a sua sina, dizia Louredo, atravessando o rio.
Nâo era o vaqueiro homem frio e indolente; ao contrário, muitas vezes tinha seus arrebatamentos. Aquela pachorra e sossêgo, só a mostrava em relação ao filho, e parecia mais produzida por uma firme resolução do que por temperamento ou tibieza de afeto.
Muitas das proezas de Arnaldo, D. Flor as vira do colo de Justa onde conchegava-se de mêdo; e ainda lembrava-se dos sustos da boa sertaneja, e do quanto ficava ela atarantada, não sabendo como dividir-se entre a sua filha de criação e o fruto de seu seio.
A menina, que tinha cinco anos então, apossara-se despoticamente daquele regaço e dele tinha expelido o seu legítimo dono. Se Arnaldo com ciúmes vinha alguma vez encolher-se ao cós da mãe e insinuava a cabeça por baixo do braço para aninhar-se, a menina percebendo-o, corria a expulsá-lo dalí.
Ela não consentia, nem que o pobre do Arnaldo se enrolasse na fralda da saia materna. Não satisfeita com o colo em que se entonava como em um trono, desherdava o colaço de todos os carinhos.
Justa, que fazia todas as vontades a Flor, obrigava o filho a afastar-se, mas às escondidas o pagava da ternura de que então o privavam os ciúmes da menina. Arnaldo obedecia à mãe para não amofiná-la; mas na primeira ocasião, às vezes no momento mesmo de arredar-se, vingava-se da colaça ferrrando-lhe um beliscão de raiva.
Gritava a menina com a dôr. Justa ficava furiosa. Agarrava um cipó, e dando uma corrida no capeta que escapulia pelo resto do dia, cuidava logo de pôr um emplastrinho de polvilho com leite de peito, para desmanchar a marca do beliscão na pele assetinada de Flor.
Daí nascera uma zanga constante entre os dois colaços, com o que a ama muito afligia-se. Em apanhando a menina de jetio, Arnaldo não deixava de fazer-lhe alguma pirraça. Umas vezes era a resina do visgueiro, que êle trazia escondida para grudar os anelados cabelos castanhos da menina e fazer deles uma maçaroca. Outras vezes passava-lhe um laço de embira e amarrava-a à goiabeira; ou trazia do mato uma fôlha de ortiga para esfregar-lhe no braço, e um lagarto para pregar-lhe um susto.
Acudia Justa aos gritos da menina, e o Arnaldo ia ao cipó. Tantas eram as capetices que não havia murta nem ateira ao redor da casa, de que êle não conhecesse as vergônteas, tão bem como as frutas.
Entretanto, a-pesar dessa briga constante, por uma singularidade que ninguém explicava, se Flor em vez de falar a Arnaldo em tom de mando, ao contrário pedia-lhe com meiguice alguma coisa, o menino seria capaz de fazer-se em migalhas para satisfazer-lhe o desejo por mais caprichoso que fosse.
Provinha isso da índole original dessa criança, na qual um coração terno e exuberante aliava-se a uma altivez estranha em sua posição, e mais ainda em sua idade. Parecia um príncipe maltrapilho, êsse pirralho do sertão, que não tolerava uma sujeição nem mesmo à vontade do pai.
Pela doçura obtinham tudo de sua generosidade sem limites. Desde, porém, que se lhe fazia uma exigência, sua suscetibilidade revoltava-se contra a ordem, e êle resistia com a tenacidade de um carneiro amuado, quando não reagia com o ímpeto de um garrote bravo.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.