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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— Olhai, disse o frade apontando para o cadáver e mostrando a sua mão ferida; eis a primeira vítima, e a segunda que escapou por um milagre; a terceira... Quem sabe o que é feito de Rui Soeiro? 

— É verdade!... onde está Rui? disse Martim Vaz. 

— Talvez morto também? 

— Depois dele virá outro e outro até que sejamos exterminados um por um; até que todos os cristãos tenham sido sacrificados. 

— Mas por quem?... Dizei o nome do vil assassino. É preciso um exemplo! O nome!...

— E não adivinhais? respondeu o italiano. Não adivinhais? quem nesta casa pode desejar a morte dos brancos, e a destruição da nossa religião? Quem senão o herege, o gentio, o selvagem traidor e infame? 

— Peri?... exclamaram os aventureiros. 

— Sim, esse índio que conta assassinar-nos a todos para saciar a sua vingança! 

— Não há de ser assim como dizeis, eu vos juro, Loredano! exclamou Vasco Afonso. 

— Bofé! gritou outro, deixai isto por minha conta. Não vos dê cuidado! 

— E não passa desta noite. O corpo de Bento Simões pede justiça. 

— E justiça será feita. 

— Neste mesmo instante. 

— Sim, agora mesmo. Eia! Segui-me. 

Loredano ouvia estas exclamações rápidas que denunciavam como a exacerbação ia lavrando com intensidade; quando porém os aventureiros quiseram lançar-se em procura do índio, ele os conteve com um gesto. 

Não lhe convinha isto; a morte de Peri era coisa acidental para ele; o seu fim principal era outro, e esperava consegui-lo facilmente. 

— O que ides fazer? perguntou imperativamente aos seus companheiros. Os aventureiros ficaram pasmados com semelhante pergunta. 

— Ides matá-lo?... 

— Mas decerto! 

— E não sabeis que não podereis fazê-lo? Que ele é protegido, amado, estimado por aqueles que pouco se importam se morremos ou vivemos? 

— Seja embora protegido, quando é criminoso... 

— Como vos iludis! Quem o julgará criminoso? Vós? Pois bem; outros julgarão inocente e o defenderão; e não tereis remédio senão curvar a cabeça e calar-vos. 

— Oh! isso é demais! 

— Julgais que somos alimárias que se podem matar impunemente? retrucou Martim Vaz.

— Sois piores que alimárias; sois escravos! 

— Por São Brás, tendes razão, Loredano. 

— Vereis morrer vossos companheiros assassinados infamemente, e não podereis vingá-los; e sereis obrigado a tragar até as vossas queixas, porque o assassino é sagrado! Sim, não o podereis tocar, repito. 

— Pois bem; eu vo-lo mostrarei! 

— E eu! gritou toda a banda. 

— Qual é vossa tenção? perguntou o italiano. 

— A nossa tenção é pedirmos a D. Antônio de Mariz que nos entregue o assassino de Bento.

— Justo! E se ele recusar, estamos desligados do nosso juramento e faremos justiça pelas nossas mãos. 

— Procedeis como homens de brio e pundonor; liguemo-nos todos e vereis que obteremos reparação; mas para isto é preciso firmeza e vontade. Não percamos tempo. Quem de vós se incumbe de ir como parlamentário a D. Antônio? 

Um aventureiro dos mais audazes e turbulentos da banda ofereceu-se; chamava-se João Feio. 

— Serei eu! 

— Sabeis o que lhe deveis dizer? 

— Oh! ficai descansado. Ouvirá boas. 

— Ides já? 

— Neste instante. 

Uma voz calma, sonora e de grave entonação, uma voz que fez estremecer todos os aventureiros, soou na entrada do alpendre: 

— Não é preciso irdes, pois que vim Aqui me tendes. 

D. Antônio de Mariz, calmo e impassível, adiantou-se até o meio do grupo, e cruzando os braços sobre o peito, volveu lentamente pelos aventureiros o seu olhar severo. 

O fidalgo não tinha uma só arma; e entretanto o aspecto de sua fisionomia venerável, a firmeza de sua voz e altivez de seu gesto nobre bastaram para fazer curvar a cabeça de todos esses homens que ameaçavam. 

Advertido por Peri dos acontecimentos que tinham tido lagar naquela noite, D. Antônio de Mariz ia sair, quando apareceram Álvaro e Aires Gomes. 

O escudeiro, que depois de sua conversa com mestre Nunes tinha adormecido, fora despertado de repente pelas imprecações e gritos que soltavam os aventureiros quando a água começou a invadir as esteiras em que estavam deitados. 

Admirado desse rumor extraordinário, Aires bateu o fuzil, acendeu a vela, e dirigiu-se para a porta para conhecer o que perturbava o seu sono: a porta, como sabemos, estava fechada e sem chave. 

O escudeiro esfregou os olhos para certificar-se do que via, e acordando Nunes, perguntou-lhe quem tomara aquela medida de precaução; seu amigo ignorava como ele. 

Nesse momento ouvia-se a voz do italiano que excitava os aventureiros à revolta; Aires Gomes percebeu então do que se tratava. 

(continua...)

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