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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

HISTÓRIA DO MEU AMOR

I

Eu já fui como uma flor que se desabotoa; sou agora como uma pomba, que geme solitária.

Quem sabe o que eu virei a ser ainda?... pobre órfã que sou, o meu porvir está tão escuro!...

Até a idade de quinze anos eu fui como uma flor que se desabotoa.

Meus pais viviam ainda, e eu passava uma vida tão feliz....! eu era a florzinha de meus pais; o jardim que eu perfumava era o coração deles.

Meu pai me chamava o seu anjo; minha mãe dizia que eu era a sua alma; e eu via bem que eles sentiam isso que diziam.

As palavras de meu pai eram tão ternas!... os carinhos de minha mãe eram tão doces!... oh! palavras e carinhos, como esses... oh!... nunca mais.

Eu era tão feliz... de manhã erguia-me, dava graças a Deus, meu pai e minha mãe me beijavam, e depois eu ia brincar.

Como eu fui travessa! às vezes, quando me tornava por demais traquinas, meu pai se fingia enfadado, e me dizia: ”Celina... aquieta-te... tu estás ficando feia”.

E minha mãe me defendia dizendo: “deixa-a brincar; ainda é feliz!... quem sabe se há de ser sempre como hoje!..”

Oh! minha mãe adivinhava com o coração! o amor dos pais é assim... profetiza.

E meu pai se tornava melancólico; abraçava-me, beijava-me, e com os olhos úmidos de lágrimas me dizia: – vai brincar.

Oh! sim! bem feliz!... bem feliz!... a minha vida era um laço de cem amores. Eu amava a Deus, amava a meus pais, amava a meus parentes, amava os pobres, e amava as flores.

II

Amava as flores!.

Como e quando foi que começou esse amor, não sei bem explicar: quando pensei... já as amava.

No berço brinquei com flores... ensaiei meus primeiros passos para ganhar uma flor que minha mãe de longe me mostrava; quando pude correr, meu pai me deu um jardim.

Desde então, quando a aurora aparecia, já me encontrava no jardim; eu gostava do primeiro raio do sol.

Os primeiros raios do sol e as flores foram as camaradas que brincaram comigo na infância.

Eu amava as flores; gostava de acompanhar a vida de um botãozinho de rosa, que se ia desabrochando pouco a pouco, como um pensamento de amor na alma de uma criança.

Depois eu fiz treze anos, e na noite em que eu fiz treze anos, tive um sonho com flores: sonhei com um botão de rosa.

Que sonho!... é uma das doces recordações do meu passado; eis aqui como foi o meu sonho.

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III

Eu pois acabava de fazer treze anos: era ainda como a flor que se desabotoa.

Mas quando completei o terceiro lustro, a morte esvoaçou ao redor de mim, e não me feriu, nem me matou. Oh! eu minto: matou-me duas vezes, porque de um só golpe me arrancou pai e mãe.

Por que não fui eu que morri, meu Deus?... eu, que nada era, nada sou, que nada serei no mundo?

Eu, que nesse tempo tinha somente sorrisos para a vida, e que, apesar disso, morreria sorrindo também; porque creio em Deus que me há de salvar!

Oh! que hora tremenda foi essa, em que eu tive de receber duas solenes bênçãos de despedida, lançadas pelas mãos já frias de meu pai e de minha mãe!

Oh! que hora tremenda foi essa, em que eu tive de partir em dois pedaços um adeus de agonia!

Não se morre de dor.

Eu vi morrer ambos... meu pai e minha mãe. Eu vi... e não morri então; eu os estou vendo... e não morro ainda.

Eu estava... tinham-me posto de joelhos junto ao leito de meu pai; era a hora terrível.

Meu pai voltou o semblante para mim e fitou os olhos no meu rosto...

Seus olhos brilhantes e pasmos pareciam querer saltar das órbitas sobre mim... oh! se ele não fora meu pai eu teria tido medo daquele olhar.

Sua boca se entreabria... seus lábios se moviam; mas ah! o desgraçado não podia falar.

Olhou... esteve assim olhando muito tempo... muito tempo, até que... oh! meu Deus!...

Duas lágrimas límpidas e brilhantes ficaram pendentes de suas pálpebras...

sua mão direita apertou o peito no lugar do coração, e... sempre me olhando... sempre me olhando, meu bom pai expirou.

A vida... a alma lhe saiu pelos olhos. Oh! sim! porque ele morreu olhando para sua filha.

Lancei-me sobre o cadáver de meu pai: arrancaram-me daí; e sabeis para quê?... para ver morrer minha mãe.

Pobre de minha infeliz mãe!... não estava em si quando eu me ajoelhei junto dela; delirava.

Começou a brincar com os meus cabelos; passou depois os dedos sobre meus

olhos, e, sentindo-os molhados de minhas lágrimas, levou-os aos lábios, sorveu as lágrimas de sua filha, dizendo:

– É bem doce!... é bem doce!...

(continua...)

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