Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
E Venâncio imediatamente, levantando as faces com lágrimas de prazer, disse entre soluços:
— É o que eu tenho dito mil vezes!... aquele rapaz saiu em todo à minha Tomásia! Tratou-se para logo de cabalar: Venâncio foi tomar a casaca para ir alcançar cartas de recomendação em prol do ilustre candidato; Manduca dispôs-se a ir ao correio comprar selos para as cartas; e Tomásia fez voto de pôr em campo todas as suas amigas.
E não era nem original, nem má a lembrança de Tomásia. Feliz daquele que puder ser candidato de senhoras: qual será o empedernido eleitor quer resista a uma cheirosa cartinha de moça, principalmente se for bonita?... em tais apuros, quem não é de ferro, não tem outro remédio senão atirar com a consciência para um lado e escrever a sua lista com o coração.
Mas no momento em que Venâncio e Manuelzinho saíam, pensando na eleição próxima e no subseqüente esperado casamento, pois não era crível que Honorina resistisse a um deputado provincial da ordem de Manduca, Brás-mimoso batia palmas na escada; e, entrando para a sala, viu-se agradavelmente recebido por Tomásia e Rosa, mesmo mais agradável do que dantes, porque enfim... as vésperas das eleições fazem a gente tão delicada... tão obsequiosa!...
Tomásia não quis falar logo sobre os projetos e esperanças do querido Manduca; por isso a conversação versou a respeito de objetos gerais. Insensivelmente, porém, foi levada passo a passo, e caiu em cheio acerca da filha de Hugo de Mendonça.
— E as senhoras têm visto essa moça?... perguntou Brás-mimoso.
— Apenas duas vezes, em que a fomos visitar, depois daquela noite desgraçada...
— Em que eu me ia lançando ao mar para salvar a pobre menina!... se não ouço o baque do outro, que caiu na água, arrojava-me eu decerto: não posso emendar-me... isto vem de natureza... em vendo alguma senhora em perigo, atiro-me, suceda o que suceder.
— Pois aí está! nós pensamos que o senhor tinha tido muito medo da tempestade, porque eu juro que o vi tremer...
— Ah!... qual medo! eu até gosto muito de tempestades: o que eu sentia era pena de ver as senhoras assustadas... mas, voltando ao que conversávamos, então já viu D. Honorina duas vezes?
— Sim... sim... coitadinha! ainda não pôde vir pagar-nos a visita... teve alguns dias de febre, e os médicos quase a mataram com a dieta...
— E como a achou?...
— Sempre agradável, carinhosa, e, todavia, melancólica...
— E já se sabe alguma particularidade a respeito do homem de cabeleira, que a salvou?...
— Qual nada; o homem desapareceu; talvez morresse.
— Aquilo não foi só humanidade!
— Eu também pensei o mesmo, acudiu Rosa.
— Ora... ora... disse Tomásia.
— Ali anda namoro encoberto, minhas senhoras...
— D. Honorina é boa moça, tornou Rosa; talvez não seja por culpa dela... mas o caso é para se julgar assim... todavia, como eu sou muito amiga dela, não consinto que se diga nada.
— Nem eu, disse Tomásia; temos sido muito obsequiadas... é uma excelente pessoa... — Decerto, decerto, respondeu Brás-mimoso; ninguém diz menos disso; posto que às vezes me tenha parecido um bocadinho hipócrita...
— Então, minha mãe, eu não lhe disse a mesma coisa?... porém não, Sr. Brás, ela parece, e não é; olhe, eu creio, e digo que aquilo tudo é singeleza.
— É vaidosa... um pouco vaidosa...
— Sim; mas não muito... pode passar; quem não tem seus defeitos?...
— Nada! ela tem presunção de bonita, e faz mau uso de suas graças; gosta de ser conquistadora, e não escolhe a quem deve conquistar...
— Mas... nós não notamos isso!...
— As senhoras são todas muito inocentes; e, portanto, deixam passar tudo...
— Só se foi por isso: eu nunca reparo nas outras; tomara que não reparassem em mim.
— Um homem é outra coisa, continuou Brás-mimoso; um homem estuda sempre as senhoras com quem está; faz-se necessário ser assim... não é por mal...
— Está visto; então o senhor notou alguma coisa?
— Sim... mas...
— Diga... todos nós somos amigos de D. Honorina; o que dissermos não será por má vontade que lhe tenhamos; mas por pena de que ela seja assim...
— Pois bem... eu reparei nos dois dias que passamos em Niterói, que D. Honorina era ambiciosa de conquistas. As senhoras hão de crer?... continuou a tratar-me com distinção; disseme palavras ternas ao ouvido, e fez-me tais perguntas, que eu me considerei o seu predileto...
— E não era?...
— Ora! vi logo depois que praticava o mesmo com Otávio; isto já não parece bem...
— Decerto... decerto.
— O Sr. Manuel não pode também queixar-se da sua sorte...
— Sim... sim, disse Tomásia; eu notei que ela se interessava muito por Manuelzinho... e, enfim, é preciso convir que teve razão.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.