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#Romances#Literatura Brasileira

Quincas Borba

Por Machado de Assis (1891)

Estendeu-lhe a mão; Camacho segurou-lha ao de leve, e tornou ao papel. Rubião desceu a escada, aturdido, magoado com a frieza do seu ilustre amigo. Que lhe teria feito?

CAPÍTULO CLXXX

DAQUELA VEZ, teve a fortuna de encontrar o Major Siqueira.

-Ia agora mesmo à sua casa, disse-lhe; vai para lá?

-Vou; mas já não estamos na mesma casa; mudamo-nos para os Cajueiros, Rua da Princesa...

-Seja onde for, vamos.

Rubião precisava de um pedaço de corda que o atasse à realidade porque o espírito sentia-se outra vez presa da vertigem. Entretanto, falou com tal acerto e propriedade, que o major o achou em pleno juízo, e disse-lhe

-Sabe que tenho uma grande notícia que lhe dar?

-Vamos a ela.

-Há de ser quando chegarmos.

Chegaram. Era uma casa assobradada; D. Tonica veio abrir-lhes a cancela. Trazia um vestido novo e brincos.

-Olhe bem para ela, disse o major pegando na filha pelo queixo

D. Tonica recuou envergonhada.

-Estou olhando, respondeu Rubião.

-Não se vê logo que é uma pessoa que vai casar?

-Ah! parabéns!

-É verdade, vai casar. Custou, mas acertou. Achou por aí um noivo, que a adora, como todos eles; eu, quando fui novo, adorei a minha defunta, que foi uma cousa nunca vista... Vai casar. Arranjou um noivo. Custou, mas acertou. Pessoa séria, meia-idade; vem aqui passar as noites. De manhã, quando passa para a repartição, creio que bate na janela, ou ela já o espera; eu finjo que não percebo. . .

D. Tonica dizia com a cabeça que não, mas sorrindo de modo que parecia dizer que sim. Estava tão buliçosa! Nem se lembrava já que requestara o Rubião, que este fora uma das últimas, e por fim a última das suas esperanças. Tinham entrado na sala; D. Tonica foi à janela, voltou, cabeça alta, andando à toa, reconciliada com a vida.

-Boa pessoa, repetiu o major, boa criatura... Tonica, vai buscar o retrato. . . Anda, vai buscar o teu noivo. . .

D. Tonica foi buscar o retrato. Era uma fotografia- representava um homem de meia idade, cabelo curto, raro, olhando espantado para a gente, cara chupada, pescoço fino e paletó abotoado

-Que lhe parece?

-Muito bem.

D. Tonica recebeu o retrato e fitou-o alguns instantes; mas, tirou logo os olhos, e deixou-se estar sentada, enquanto a imaginação saiu a esperar o Rodrigues. Chamava-se Rodrigues. Era mais baixo que ela,-cousa que o retrato não dava,-e empregado em uma repartição do Ministério da Guerra. Viúvo, com dous filhos, um que estava no batalhão dos menores, outro que era tuberculoso,-doze anos,-condenado à morte. Que importa? Era o noivo; todas as noites, ao recolher-se, D. Tonica ajoelhava-se ante a imagem de Nossa Senhora, sua madrinha, agradecia-lhe o favor e pedia-lhe que a fizesse feliz. Sonhava já com um filho; havia de chamar-se AIvaro.

CAPÍTULO CLXXXI

RUBIÃO escutou calado um discurso do major. O casamento era dali a mês e meio; o noivo tinha que perfazer os arranjos da casa, não era capitalista, vivia do ordenado e recorrera a empréstimos. A casa era a mesma e não exigia trastes novos nem ricos; mas há sempre algumas necessidades... Em suma, dali a mês e meio, ou pelo menos, cinco semanas, estariam unidos pelos santos laços do matrimônio.

-E fico eu livre do trambolho, concluiu o major

-Oh! protestou Rubião.

A filha ria-se; estava acostumada às graças do pai, e tão disposta à alegria que nada a vexava; ainda mesmo que o pai se referisse aos seus quarenta anos passados não lhe daria grande golpe. Todas as noivas têm quinze anos.

-Verá como ele há de procurá-la depois, com saudades, disse Rubião a D. Tonica. -Qual! Talvez eu me case também!

Rubião levantou-se repentino, e deu alguns passos; o major não viu a expressão do rosto, não percebeu que o espírito do homem ia talvez descarrilhar, e que ele mesmo o pressentia. Disse-lhe que se sentasse, e contou-lhe os seus tempos de casado e de campanha. Quando chegou à narração da batalha de Monte-Caseros, com as marchas e contramarchas próprias do seu discurso, tinha diante de si Napoleão III. Calado a princípio, Rubião proferiu algumas palavras de aplauso, citou Solferino e Magenta, prometeu ao Siqueira uma condecoração. Pai e filha entreolharam-se; o major disse que vinha muita chuva. Com efeito, escurecera um pouco. Era melhor que Rubião fosse, antes de cair água; não trouxera guarda chuva, o dele era velho e único...

-Aí vem o meu coche, redargüiu Rubião tranqüilamente.

-Não vem, foi esperá-lo no Campo. Não vês daí o coche, Tonica?

D. Tonica fez um gesto vago e sem vontade. Não queria mentir, mas tinha medo, e desejava que Rubião saísse. Da casa era impossível ver o Campo da Aclamação. Já então o pai pegava no Rubião pelo braço e o encaminhava para a porta.

-Volte amanhã, depois, quando quiser.

(continua...)

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