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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Teve a ocasião na sua lenta volta, de verificar Bogoloff que todas as cidades do Brasil se parecem, tem a mesma fisionomia, possuem casas edificadas da mesma forma e até as ruas têm os mesmo nomes e os apelidos das lojas de comércio são os mesmos.

Um país tão vasto, que se desenvolveu através de climas e regiões tão diferentes, é, entretanto, nos seus aspectos sociais, monótono e uno.

Já tinha o russo notado isso na sua viagem para o Estado das Palmeiras, e, na volta, foi que se certificou com vagar.

Quase há um tempo recebeu Lucrécio Barba-de-Bode telegramas de Bogoloff e do secretário do governador, avisando-o que o engenheiro havia sido promovido. A atividade política de Lucrécio estava captada agora em apreender os assovios. A população, roubada nos meios de manifestação de seu querer, virava-se para a terrível arma das crianças — a vaia. Os asseclas do governo sabiam que as casas de brinquedos não tinham mãos a medir na venda de gaitas, apitos, assobios; e os funileiros da cidade haviam deixado outras obras para fabricarem esses inocentes brinquedos de infância.

Todo o trabalho da polícia fardada, civil, oficial oficiosa, particular, era caçar assovios. Era ver um cidadão com uma gaita, logo lha arrebatava; os doceiros escondiam as flautas com que anunciavam à petizada os quindins que levavam. Lucrécio, alto, espadaúdo, tórax proeminente, com o seu paletó de alpaca, corria a cidade com o bengalão de pequi arrancando assovios. Uns inutilizava na chefatura, mas outros levava para casa. O filho, quando vinha visitá-los, não se apercebia da proibição e apanhava as gaitas. Dava-as às crianças da vizinhança com uma liberalidade de milionário, essas flautas gritantes e sereias agudas, de forma que a rua onde morava Lucrécio se encarregava de fazer voltar à população os assovios que lhe eram arrebatados pelos policiais diligentes.

Fuas Bandeiras, no seu jornal, não se cansava de doutrinar contra o apito, que ele julgava um instrumento vexatório, indigno, mesmo nas mãos dos rondantes a desoras; e como é que se ia usar semelhante arma contra a mais alta autoridade de um país?

Não era só contra o apito que Fuas desenvolvia considerações tendenciosas; o jornalista insinuou mesmo o linchamento de colegas. Como não se podia deixar de esperar, provocada naturalmente pelas medidas que os adeptos de Bentes tinham posto em prática para amordaçar a opinião, a imprensa analisou minuciosamente os méritos de Bentes.

Fuas, na falta de melhor modo de combater essa análise, lembrou e insinuou que se devia proceder contra esses heresiarcas da mesma maneira que se havia feito outrora com Apulcro de Castro. Não há nada mais infeliz, porquanto esse

Apulcro, que foi em vida um difamador profissional, a sua morte redimiu-o e elevou-

o. Havia dito ele, em seu jornal, que um certo capitão era caloteiro e logo todos os oficiais, sargentos, cabos, faxinas se julgaram ofendidos, não trepidando em vir em grupo matá-lo em plena rua, às barbas da autoridade.

Vergonha maior para um país não se concebe e não se compreende a inteligência desses oficiais. soldados, sargentos, cabos, faxinas, que se julgaram ofendidos por ser acusado um capitão de não pagar suas contas.

Apelando para essas honras obsoletas de classe, para essas superstições de grupos, Fuas desentranhava com o seu jornal as mais abstrusas doutrinas e selava as ameaças mais papuas possíveis.

Com a aproximação da posse de Bentes, essa excitação geral do povo despertou a Câmara dos Deputados, onde as discussões foram renhidas.

A minoria era diminuta e a maioria se tinha crescido muito com o preenchimento de vagas intercorrentes, por morte ou por outro motivo, de deputados oposicionistas. Nunca se viu deputados mais curiosos, mais imprevistos, sendo alguns mesmo de outra nacionalidade que não a brasileira. Já se tinha visto a apologia da ignorância, já se vira a apologia do assassinato de Apulcro de Castro, agora a Câmara punha em prática a internacionalização da representação do país. Havia deputados turcos, ingleses, belgas, finlandeses e todos eles conservando orgulhosamente a sua nacionalidade de origem e mal falando o português.



(continua...)

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