Por Aluísio Azevedo (1895)
- Ser melhor do que és?... Oh! então é que serias deveras um tipo insuportável! Acredita, meu bom Coruja, que o teu defeito capital é a tua extrema bondade. A maior parte dos homens não te pode tomar a sério, porque não te compreende e porque te supõe um louco. Tens atravessado a existência a espalhar pelo chão, à toa, sem contar as sementes, punhados e punhados de boas ações. Pois hein! Qual foi de todas essas sementes a que vingou? - Nem uma única! Não porque não fossem perfeitas e sãs, mas porque não encontraram terra em que pudessem medrar! És um excêntrico, um aleijado, um monstro, tens o coração defeituoso, porque ele não é como o coração típico dos mais. E como, em semelhantes condições, queres ter amigos; queres ser ao menos suportado entre os homens? Já viste porventura uma pomba atravessar impunemente por entre um bando de corvos?... Se queres ser bem recebido no meio dos homens, se homem como eles ou pior; desculpa-lhes os vícios - imitando-os; afaga-lhes o amor--próprio, fingindo que os admiras; e dessa forma, se fores um forte hás de desfrutá-los, e se fores um vulgar hás de viver com esse lado a lado, na mais doce harmonia e na mais deliciosa felicidade. Isso é a vida!
- Oh! não me pareces o mesmo; nem acredito que abraces tão cínicas teorias; são falsas,nunca te pertenceram!
- Enganas-te, meu visionário, essas teorias foram sempre as minhas e nunca meconheceste outra, desde que caminhamos juntos por entre a enorme corja de nossos semelhantes; a diferença única é que dantes elas se manifestavam por outro modo, visto que eu me achava ainda no período da vida em que todo o homem, por pior que seja, tem no coração uma grande dose de altruísmo e belas aspirações... Eram efeitos dos vinte anos! Acredita, porém, que todas as aparentes generosidades que me viste praticar, todo o meu desprendimento por umas tantas coisas, todas as minhas abnegações, todas as minhas boas obras, todos os meus atos de heroísmo, e tudo que fiz e faço de nobre, de superior e digno, tudo foi e é feito para que eu melhor viva entre os meus semelhantes, a quem detesto, à exceção de ti e de Branca. Detesto-os, mas faço-me amar por eles; sei que me humilhando serei pisado; então, nem só me humilho, como ainda os rebaixo quanto posso! E contigo sucede justamente o contrário: amas todo o mundo e não consegues te fazer amar por ninguém. Humilhas-te por bondade; e eles respondem a isso - desprezando-te. A humanidade, meu amigo, em geral é baixa e vil, logo que encontra alguém que a respeita, julga esse alguém ainda mais baixo e mais vil do que ela; para lhe merecer alguma consideração é indispensável fazer o que eu faço e o contrário do que tu fazes - é necessário desprezá-la e só aceitar das mãos dela aquilo que serve para nos elevar e engrandecer-nos, rebaixando-a. O homem tudo perdoa aos seus semelhantes, menos o bem que estes lhe façam, porque - dever um obséquio é dever gratidão, e a gratidão jamais vem de cima para baixo, mas sempre vai de baixo para cima! Aceitá-la é aceitar uma atitude inferior. A grande filosofia da vida consiste, pois, em saber aproveitar todo o bem que nos queiram fazer, fingindo sempre que tão pouca importância lhe ligamos, que nem dele nos apercebemos, e fechar o coração a todos, para não obrigar quem quer que seja a nos ser grato!
Coruja ficou a refletir por alguns instantes, e depois disse:
- Estava bem longe de esperar de tua boca tais idéias, e confesso que te fazia na conta de meu amigo..
- E sou efetivamente; mas tu, repito, não és um homem e nem eu te falaria com toda esta franqueza se tivesses alguma coisa de comum com eles. Não me arrependo de haver aceitado os muitos obséquios que recebi de tuas mãos; juro-te, porém, que jamais terias ocasião de os praticar se eu em qualquer tempo chegasse a descobrir em ti a intenção de me fazeres grato ou reconhecido. Aceitava-os, confesso, porque tu, pela tua excepcional bondade, entendias que eu, só com recebe-los, prestava-te um grande serviço.
- E era.
- Não, em verdade não era; mas era como se assim fosse, porque tu assim o entendias.- E o que não serei eu capaz de fazer para continuar a ser teu amigo?... Só a idéia de que não me repeles e não me condenas como todos os outros, todos, até mesmo a minha noiva; só essa idéia é já uma grande consolação para mim. Não imaginas meu Teobaldo, quanto me dói cada vez mais esta terrível antipatia que inspiro a toda a gente. Ainda há pouco, enquanto me falavas de tua mulher, dizia eu comigo: "Para que hei de aproximar, para que me hei de chegar para ela, se tenho plena certeza de que minha presença lhe é fatalmente penosa, e aborrecida?"
- Exageras! respondeu Teobaldo. E para o que, vais ver!
E correu a tocar o tímpano.
- Que fazes? perguntou o Coruja, aflito.
- Verás, disse o outro, e acrescentou para um criado que entrava:
- Pergunte A senhora se pode chegar até aqui.
- Não faças semelhante coisa... exclamou André, entre suplicante e repreensivo, e muito sobressaltado: - Que não irá supor D. Branca!
- Suporá que endoideceste se continuas a fazer esses trejeitos e esses gatimanhos.- Mas eu agora não posso me demorar... voltarei daqui a pouco...
- Não seja criança! Espera.
Nessa ocasião, Branca assomava à porta do gabinete em que conversavam os dois amigos. Vinha deslumbrante de simplicidade e de beleza; não se lhe via uma jóia no corpo, nem uma só fita no vestido inteiriço, de cambraia; mas a sua pequena cabeça altiva e dominadora estava a pedir um diadema e as suas belas espáduas um manto de rainha.
Coruja, ao vê-la, abaixou os olhes e começou a respirar convulsivamente, como um criminoso que vai ouvir a sentença.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.